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Psicofobia e Transtornos Mentais

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Nos meus anos de atendimento clínico como Psicólogo, uma das coisas que mais me chama a atenção é como a falta de compreensão sobre saúde mental pesa na vida das pessoas. Muitas vezes, o sofrimento não vem só do transtorno mental em si, mas também da forma como a sociedade reage a ele.

Imagine a cena: uma pessoa com a perna quebrada.
Ela sente dor, precisa de gesso, muletas, tratamento. Todo mundo vê, todo mundo entende e, o mais importante, quase todo mundo tem compaixão. Ninguém chega para ela e diz: “Ah, isso é frescura! Levanta e anda! É falta de força de vontade!”.

Agora, pense em alguém com uma tristeza profunda, uma ansiedade que paralisa, ou um transtorno que faz ouvir vozes. Nada disso dá para ver a olho nu. E, por não enxergar, muita gente acaba reagindo com críticas, julgamentos e até medo. O sofrimento já é enorme por causa do transtorno em si, mas ele fica muito maior por causa da falta de compreensão e da falta de empatia ao redor.

Quando alguém não entende o que é um transtorno mental, ou não tem empatia por quem está passando por isso, o sofrimento se multiplica. A pessoa já está lidando com algo difícil dentro de si e ainda precisa lidar com o julgamento externo.

E aí me pergunto: qual o nosso papel como cidadãos para diminuir esse peso?
Na minha visão, o primeiro passo é informação. Precisamos falar mais sobre saúde mental de um jeito simples, para que todo mundo entenda.

A falta de compreensão gera medo, preconceito e, às vezes, atitudes discriminatórias. É daí que nasce algo que chamamos de psicofobia que nada mais é que o preconceito contra pessoas com transtornos mentais ou contra as pessoas que fazem tratamento para cuidar da saúde mental/ emocional.

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E a psicofobia não é algo novo. O que acontece é que, hoje, com as redes sociais, tudo se espalha muito mais rápido. Comentários maldosos ou desinformação podem viralizar em minutos, atingindo milhares de pessoas. E, no ambiente online, muitas vezes há menos empatia (o anonimato facilita ataques e julgamentos).

Um exemplo recente foi a polêmica envolvendo a cantora Maraisa e a música Borderline. Andressa Urach, que tem diagnóstico de transtorno de personalidade borderline, disse que essa música reforçava estigmas sobre o transtorno. A internet se dividiu: uns apoiaram, outros zombaram. Isso mostra como o debate ainda é cheio de ruídos e como é preciso cuidado ao falar de saúde mental.

Então, para contribuir com esse debate, hoje quero responder duas perguntas que chegam muito no consultório e que contribui para informar, um dos pilares para que possamos construir empatia e lutarmos contra a psicofobia:

A Primeira é o que é um TRANSTORNO MENTAL?
De forma bem simples, é quando nossos pensamentos, sentimentos ou comportamentos ficam de tal forma alterados que começam a atrapalhar nossa vida no dia-a-dia.

Por exemplo:

  • Não é só uma tristeza comum. É uma tristeza que dura semanas ou meses, e faz você perder o prazer pelas coisas (isso pode ser depressão).
  • Não é só uma preocupação normal. É um medo constante que não deixa você dormir ou relaxar (isso pode ser ansiedade).
  • Não é só uma mudança de humor. É uma oscilação tão intensa que afeta trabalho, relações e a própria vida (isso pode ser transtorno bipolar).

E não, não é frescura, nem falta de força de vontade. É algo que pode acontecer com qualquer pessoa, em qualquer fase da vida. Pode ter origem genética, estar ligado a traumas, estresse ou até a mudanças químicas no cérebro.

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A boa notícia é que todos os transtornos mentais têm tratamento. Pode ser com psicoterapia, medicamentos ou mudanças no estilo de vida. Mas é importante procurar ajuda o quanto antes (quanto mais cedo começa o cuidado, menores são as chances de complicações no futuro).

A segunda pergunta que ouço bastante é: dá para controlar totalmente os pensamentos e sentimentos quando se sofre de algum transtorno mental?
Aqui está uma confusão comum. Na maioria das vezes, não é algo totalmente fora do controle, mas também não é algo que a pessoa escolhe sentir. Podemos imaginar um continuum:

  • Há momentos em que a pessoa ainda consegue controlar o que sente, mas com muito esforço como quando alguém está ansioso, mas respira fundo e consegue dar uma palestra mesmo assim.
  • E há momentos em que o transtorno domina completamente como uma crise de pânico, em que o corpo dispara sintomas tão intensos que parece impossível raciocinar, ou um episódio depressivo grave em que a pessoa mal consegue sair da cama.

O grau de controle varia de pessoa para pessoa e de momento para momento e também da intensidade do transtorno.
É como uma doença física: você não escolhe ter uma úlcera ou uma dor de cabeça, mas pode buscar tratamento para entender o que está acontecendo e cuidar disso.

Por isso, precisamos parar de ver transtornos mentais como “fraqueza de caráter”. São condições de saúde que precisam de apoio, tratamento e compreensão exatamente como qualquer outra doença.

A mensagem que deixo para você, ouvinte, é essa: informação gera empatia. Quanto mais entendemos sobre saúde mental, menos julgamos e mais ajudamos. E ajudar pode ser algo simples: ouvir sem criticar; acolher quem está em sofrimento; incentivar a busca por ajuda profissional; e falar abertamente sobre o tema, para que deixe de ser tabu.

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