✓ Link copiado!
A
A

Violência Doméstica

Ouça agora
Getting your Trinity Audio player ready...

Ultimamente, os casos de violência doméstica e feminicídio têm aumentado no Brasil, com destaque para estados como São Paulo, Bahia, Maranhão e Pará. Ao mesmo tempo, o movimento feminista e as políticas de proteção às mulheres também avançam, trazendo programas governamentais, mudanças na legislação e punições mais claras aos agressores, ainda que haja muito a ser feito.

Em março de 2026, o Ministério da Saúde anunciou um pacote de ações que inclui atendimento em saúde mental, à distância, para mulheres em situação de violência. O projeto começa em Recife e no Rio de Janeiro, deve ser ampliado em maio para cidades com mais de 150 mil habitantes e tem previsão de alcançar todo o país em junho de 2026. É uma resposta do poder público ao aumento da violência doméstica, que atinge principalmente as mulheres dentro de casa, muitas vezes na mão de seus próprios companheiros.

O impacto na saúde mental dessas mulheres é enorme. E não só delas: filhos que assistem às cenas, pais, amigos, vizinhos, toda uma rede é afetada e, muitas vezes, sofre em silêncio, sem saber como agir. A violência doméstica não tem uma cara só. Quando se fala no assunto, muita gente pensa imediatamente na agressão física que machuca o corpo, e continua sendo agressão mesmo quando não deixa roxo à mostra. Mas há outras formas de violência que doem tanto quanto.

Há a violência psicológica e emocional: humilhações, xingamentos, ameaças, controle pelo medo. E há também o famoso gaslighting palavra em inglês que representa a ação de quando o agressor faz a mulher duvidar da própria sanidade, dos próprios sentimentos e percepções, repetindo que ela está exagerando, inventando coisas, “fazendo drama”. Aos poucos, ela começa a acreditar mais na versão dele do que na própria.

Existe ainda a violência moral, que atinge a honra e a reputação: espalhar boatos sobre traição, expor conversas íntimas, fotos, detalhes da vida sexual, fazer acusações falsas. Tudo para envergonhar, desqualificar e diminuir aquela mulher. Já a violência sexual ocorre quando ela é coagida a práticas que não deseja. É importante reforçar: casamento ou namoro não significam consentimento automático. Forçar sexo, insistir em atos que causam dor ou humilhação, obrigar a engravidar ou a abortar, usar o sexo como moeda de troca por casa, comida ou dinheiro: tudo isso é violência sexual.

Tem também a violência patrimonial ou financeira: o parceiro que não deixa a mulher trabalhar, que controla o salário dela, usa o cartão, faz dívidas em seu nome, vende bens sem autorização, quebra objetos, destrói o celular, o computador, o instrumento de trabalho. Ao mexer no dinheiro e nos bens, ele mexe na autonomia dela.

Agende uma consulta clicando no botão abaixo

E, cada vez mais, vemos a violência digital: monitorar redes sociais, exigir senhas, checar conversas, rastrear localização, ameaçar divulgar nudes, fazer ataques públicos na internet. É o parceiro que manda trocar a foto do perfil, fiscaliza quem curte, comenta ou segue, diz a que horas ela pode sair ou voltar, opina em como ela se veste e se arruma em nome de um “cuidado” que, na prática, é vigilância.

Muitas vezes, no começo, essas violências não são percebidas como violência. A mulher interpreta como ciúme, como cuidado, como “jeito dele”. Tende a minimizar: “não foi tão grave assim”, “todo casal briga”, “normal discutir de vez em quando”. A mente cria explicações para suportar algo que, se fosse reconhecido em toda a sua gravidade, exigiria uma ruptura difícil, que envolve medo de ficar sozinha, medo de não se sustentar, medo pela reação do agressor.

Frases como “foi só um surto”, “ele estava nervoso”, “eu também provoquei” são formas de reduzir o impacto daquilo que aconteceu. É a mente tentando sobreviver em meio ao caos. Aos poucos, a mulher pode começar a acreditar que é responsável pela agressão, que se fosse “mais calma” ou “menos respondona” isso não aconteceria. E a sociedade, em vez de perguntar “por que ele agrediu?”, muitas vezes pergunta “por que ela não foi embora?”.

A repetição dessas violências, dia após dia, dentro da própria casa, gera o que chamamos de trauma crônico ou complexo. É a marca que a violência contínua imprime no corpo e na mente. Não é só o episódio isolado, é o ambiente inteiro funcionando como ameaça.

Imagine, por exemplo, uma mulher que, depois de anos de agressões, pede demissão do trabalho porque não consegue mais se concentrar. Ela vive assustada, com medo de o agressor aparecer na porta da empresa. Passa a evitar olhar nos olhos de homens desconhecidos, tem dificuldade até de escolher o que vai comer, com medo de “errar” e ser criticada. Quando o filho grita brincando, o corpo dela se encolhe como se o perigo estivesse de novo na sala. O trauma faz isso: mantém o sistema nervoso em alerta máximo, como se a ameaça ainda estivesse ali, mesmo quando a pessoa já saiu fisicamente daquele ambiente.

Quem desenvolve um Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) pode ter pesadelos, flashbacks, crises de ansiedade, ataques de pânico, depressão, pensamentos de morte. Os sintomas aparecem no corpo (dores constantes, insônia, problemas digestivos), nas emoções (medo, vergonha, culpa profunda), nos pensamentos (dificuldade de se concentrar, lembranças invasivas, uma visão muito negativa de si mesma). Nas relações, pode surgir um medo grande de confiar, de se aproximar, de se envolver de novo. No comportamento, podem aparecer tentativas de anestesiar a dor com álcool, outras substâncias, automutilação ou alterações na alimentação.

Agende uma consulta clicando no botão abaixo

Se você conhece alguém que vive ou viveu violência doméstica, o primeiro ponto é: essa pessoa precisa estar fora da situação de violência para que o trauma possa ser cuidado. Enquanto o perigo é real e presente, a prioridade é a segurança. Isso pode envolver abrigos, medidas protetivas, apoio da família, ajuda jurídica.

Depois disso, ela precisa ser escutada sem julgamento. Precisa poder contar sua história no seu tempo, sem ouvir “mas por que você ficou?”, “mas será que foi bem assim?”. Precisa ouvir (e ouvir várias vezes) que o que aconteceu foi real, foi grave e não foi culpa dela. Porque, durante muito tempo, provavelmente disseram exatamente o contrário.

A psicoterapia é um recurso fundamental nesse processo. É no espaço terapêutico que essa mulher pode se escutar, entender o que viveu, reconhecer sua coragem por ter sobrevivido, reconstruir autoestima, revisar crenças, redesenhar limites. A terapia também ajuda a reaproximar-se de pessoas de confiança, a participar de grupos de apoio, a retomar atividades que antes faziam sentido e foram abandonadas ao longo do ciclo de violência.

Em alguns casos, o uso de medicação pode ser necessário, principalmente quando há quadros de depressão, ansiedade intensa ou insônia importantes. A combinação de acompanhamento psicológico e, quando indicado, psiquiátrico, costuma trazer mais amparo e estabilidade emocional.

A recuperação leva tempo. Não é um caminho linear, nem rápido. Envolve idas e vindas, dias em que a pessoa sente que avançou e outros em que parece ter voltado atrás. Reconstruir autoconfiança, aprender a identificar sinais de alerta em relacionamentos, distinguir carinho de controle, cuidado de posse, tudo isso faz parte do processo.

Apesar da dor e das marcas, é importante reforçar: é possível, sim, reconstruir a vida depois da violência. Com apoio, acolhimento e proteção, muitas mulheres conseguem retomar sua autonomia, fortalecer sua rede de apoio, ressignificar a própria história e recuperar a capacidade de confiar (primeiro em si mesmas e, com o tempo, também nos outros).

Se você conhece alguém nessa situação, oferecer escuta e informação já é um grande passo. Ajude essa pessoa a buscar redes de apoio, serviços especializados, canais de denúncia, atendimento psicológico. E, se é você quem está vivendo isso, saiba que você não está sozinha, que não merece o que está acontecendo e que existem saídas.

Cuidar da saúde mental é parte essencial para romper ciclos de violência e escrever um novo capítulo da própria história. A violência deixa marcas, sim. Mas não apaga a possibilidade de recomeçar.

Agende uma consulta clicando no botão abaixo

Pesquisar

Artigos

Deixe sua mensagem