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De que modo curtir o Carnaval?

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Carnaval pode ser uma experiência muito boa para uns e muito desconfortável para outros, e isso é totalmente legítimo. O ponto central é: cada pessoa tem o direito de viver ou não a folia do jeito que combina com seu modo de ser.

Dias atrás eu estava em um carro de aplicativo, aqui em São Paulo, ouvindo no rádio uma notícia sobre blocos de rua de carnaval que tinham ficado superlotados e tiveram problemas de organização e segurança. Assim que ouviu a notícia, o motorista começou a comentar que detestava carnaval.​

Ele contou que, no passado, ia a clubes e bloquinhos apenas para agradar a noiva, que amava a folia. Ele não bancava a própria vontade, ia contrariado, e voltava sempre com a sensação de que estava fazendo algo “obrigado”, não por prazer. Quando o relacionamento terminou, no carnaval seguinte ele sentiu alívio por não precisar mais enfrentar festas que ele dizia odiar.

Hoje, quando escuta notícias sobre brigas, confusão ou falta de segurança em blocos, ele ativa lembranças ruins e sente ainda mais aversão ao carnaval. No relato dele, aparecia também uma ideia de que talvez o carnaval devesse ser mais restrito, ou que as pessoas devessem “brincar de outro jeito”, porque a experiência dele foi negativa.

Na hora, eu respondi: nem todo mundo experiencia o carnaval como você viveu. As pessoas têm o direito de gostar ou não da folia, e também de escolher como participar. O que faltou para ele, naquele momento da vida, foi se autorizar a dizer: “eu não gosto disso, mas posso viver o feriado de outra forma”.

Essa situação me fez pensar no tema de hoje: como passar pelo carnaval de um jeito que combine com você?

Se você não gosta de multidão, não precisa ficar no meio da multidão. Há quem se beneficie só de ouvir a música de longe, sentir o clima festivo da cidade, ver um desfile pela TV ou dançar na sala de casa. O importante é encontrar uma forma de participação, ou até de afastamento, que respeite seu jeito de ser.

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Imaginar alguns exemplos ajuda:

  • A pessoa que detesta aglomeração, mas adora assistir desfiles em casa, com uma pipoca, controlando o volume da TV.
  • Quem prefere aproveitar o feriado para cozinhar pratos temáticos, ouvir uma playlist de marchinhas, ver fotos antigas e celebrar no seu próprio ritmo.
  • Quem escolhe usar esses dias para descansar, viajar ou colocar a leitura em dia, sem culpa nenhuma.

O que o motorista de aplicativo não sabia, quando se obrigava a acompanhar a noiva, é que ele não precisava fazer o que todo mundo faz. Ele poderia ter proposto outra forma de passar pelo feriado, negociado com ela, ou simplesmente deixado que ela fosse se divertir com as amigas enquanto ele fazia outra coisa. Isso mostra que cada pessoa tem seus motivos, gostos e formas de diversão, que são únicas e pessoais.

A sociedade cria uma pressão para que todo mundo curta o carnaval, como se existisse uma forma “certa” de aproveitar: se jogando em blocos, bebendo, postando fotos e vídeos o tempo todo. Essa pressão vem de vários lugares: amigos, colegas, família, redes sociais.

Nessas horas, o autoconhecimento é fundamental. Quando a gente se conhece, fica mais fácil sustentar as próprias escolhas. Se você não gosta de barulho, de aglomeração ou do clima dos blocos, isso não é defeito, é só preferência. Não gostar de carnaval, do jeito que ele é apresentado socialmente, é tão legítimo quanto amar a festa.

Segue algumas alternativas para quem não curte a folia tradicional:

  • Maratonar filmes ou séries.
  • Visitar parentes ou amigos em ambientes tranquilos.
  • Fazer um churrasco, um almoço demorado ou um encontro íntimo com poucas pessoas.
  • Reservar o feriado para descanso real: dormir mais, desligar o celular, cuidar da casa ou de um hobby.
  • Viajar para um local que combine mais com as suas pretenções.

Hoje, a pressão também vem forte das redes sociais: uma enxurrada de stories de amigos fantasiados, dançando, sorrindo o tempo todo. Se isso te faz mal, vale considerar uma pausa digital nesses dias, reduzir o tempo de tela ou silenciar perfis. Dizer “não” aos convites, com gentileza e sem culpa, é um cuidado com sua saúde mental. Criar alternativas prazerosas para o feriado, como uma viagem tranquila ou programas com pessoas na mesma “vibe” que você, é tão válido quanto ir a um bloco.

Por outro lado, para quem gosta de blocos, escolas de samba e clubes, o carnaval pode ter um efeito muito positivo na saúde mental, desde que vivido com cuidado e limites.

O carnaval cria um espaço lúdico, em que muitas regras sociais ficam mais flexíveis: você pode vestir o que quiser, dançar como quiser, explorar fantasias e personagens que ficam reprimidos no dia a dia. A música, o ritmo e a dança ajudam a liberar emoções represadas e a reduzir o estresse. A ciência mostra que dançar libera endorfina, dopamina e serotonina, substâncias ligadas à sensação de prazer, bem-estar e regulação do humor.

Imagine uma pessoa tímida, que passa o ano inteiro se policiando para ser “adequada” no trabalho e em casa. No carnaval, ela veste uma fantasia colorida, entra num bloco e dança livremente. Pela primeira vez em meses, ela não está se julgando. Na psicologia, podemos enxergar isso como um tipo de “respiro psíquico”: um momento em que a pessoa afrouxa a autocrítica e experimenta mais espontaneidade.

Estar numa multidão, para quem se sente confortável com isso, também pode trazer sensação de pertencimento, de fazer parte de algo maior, o que ajuda a combater o isolamento e a solidão. Ao mesmo tempo, é importante lembrar: o carnaval não substitui terapia. Ele pode aliviar, mas não cura problemas emocionais mais profundos.

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Os efeitos do carnaval na saúde mental dependem muito do contexto e da relação de cada pessoa com a festa, assim como vimos na história do motorista. Quem sai, se hidrata, se alimenta bem, descansa, respeita seus limites e volta em segurança tende a se sentir melhor, mais leve, com sensação de renovação. Já quem vira várias noites, dorme pouco, bebe demais e se expõe a situações de risco pode ficar exausto, irritado e até adoecido emocionalmente.

Alguns cuidados importantes para quem vai à folia:

  • Atenção à privação de sono: noites mal dormidas aumentam irritabilidade, ansiedade e queda de imunidade.
  • Cuidado com o excesso de álcool e outras substâncias, que podem piorar quadros de depressão e ansiedade e levar a comportamentos de risco.
  • Alimentação minimamente regular e hidratação constante, para evitar mal-estar físico que se soma ao cansaço mental.

Há também a chamada “ressaca emocional pós-festa”: o contraste entre a euforia coletiva e o retorno à rotina mais silenciosa pode gerar sensação de vazio e tristeza para algumas pessoas. Se a vulnerabilidade emocional já é grande (por exemplo, em casos de depressão ou luto recente) usar o carnaval apenas para “anestesiar” a dor, bebendo demais ou se sobrecarregando, pode piorar o quadro.

Pense em dois cenários:

  • Uma pessoa que terminou um relacionamento há dois meses, sai com amigos, dança, sente o corpo em movimento e, por algumas horas, sente alívio da tristeza. Isso pode funcionar como uma catarse, um extravasamento saudável.
  • Outra, em depressão profunda, usa o carnaval para beber exageradamente todas as noites, ficar com várias pessoas, tentar preencher um vazio. Termina a festa com o vazio ainda lá, agora acompanhado de culpa e vergonha.

Por isso, carnaval não é terapia. Ele pode ajudar a aliviar, mas não resolve sozinho questões emocionais importantes. Quando o sofrimento é intenso ou persistente, é fundamental buscar ajuda profissional.

No fundo, a chave é o chamado “consentimento interno”: o carnaval só é terapêutico, ou minimamente saudável, se eu realmente quiser estar ali e se eu me envolver de forma consciente com o que estou fazendo.

Eu posso me descarregar emocionalmente num bloco, sentir pertença, dividir alegria com outras pessoas. Mas também posso viver tudo isso de outras formas: assistindo a um filme preferido, viajando para um lugar tranquilo, encontrando amigos em casa ou até usando o feriado para ficar em silêncio.

Respeitar o próprio ritmo, reconhecer limites e preferências, e não transformar o que é diferente em defeito, é o que protege a saúde mental nesse período. O carnaval pode ser festa, descanso ou até um período neutro no calendário: o importante é que a escolha seja sua.

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