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No último fim de semana, dei uma palestra sobre o quanto estamos desaprendendo a descansar. E falei sobre a cultura da produtividade.
O que é essa cultura? É aquela em que o valor máximo da existência é ser produtivo, em que você vale pelo quanto produz. Sabe aquela ideia de que tempo é dinheiro e descanso é privilégio? Essa cultura, que valoriza tanto o fazer e tão pouco o ser, está gerando nos trabalhadores processos de adoecimento mental que afetam não só a vida no trabalho, mas também a vida pessoal.
Os números do adoecimento mental no trabalho
Os dados mostram que, em 2014, cerca de 203 mil trabalhadores foram afastados por questões de saúde mental no Brasil. Em 2024, dez anos depois, esse número chegou a 472 mil. E em 2025, os dados da Previdência Social ultrapassaram 546 mil benefícios concedidos por transtornos mentais e comportamentais, o maior da série histórica. As despesas com esse tipo de benefício também dispararam: passaram de 18,9 bilhões de reais em 2022 para 31,8 bilhões em 2024, um aumento de 68%.
A NR-1 e os riscos psicossociais
Por conta disso, o país aprovou, em 2024, uma mudança na NR-1, a Norma Regulamentadora número 1 do Ministério do Trabalho, que trata das disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho. Depois de sucessivos adiamentos, a regra entrou em vigor neste ano, obrigando todas as empresas a incluir os riscos psicossociais, como assédio, metas abusivas e jornadas exaustivas, no gerenciamento de riscos ocupacionais. Isso torna obrigatória a identificação, a avaliação e o controle desses fatores.
Estamos, como sociedade, governo e Estado, entendendo a importância da saúde mental, não só no trabalho, mas na vida cotidiana, na família, com os amigos. E por isso discutimos hoje, bem mais do que antigamente, as condições em que o trabalho é feito, a cultura interna da empresa, o ambiente que ela produz. Se esse ambiente é saudável ou não para desenvolver as capacidades das pessoas.
O que é Presenteísmo e Absenteísmo?
Existem dois fenômenos que acontecem na população que trabalha: o absenteísmo e o presenteísmo.
O absenteísmo é a falta ao trabalho, justificada ou não. É quando a pessoa não vai trabalhar porque não está em condições, físicas ou psicológicas, de exercer sua função. O presenteísmo é o contrário. É a pessoa que vai trabalhar apesar de não estar em condições adequadas para isso.
Imagine alguém que passa oito horas no escritório, mas está tão ansiosa, deprimida ou exausta que relê os mesmos e-mails várias vezes, comete erros e tem dificuldade de concluir tarefas simples. Isso é presenteísmo. Acontece quando o trabalhador está presente, mas sua condição física ou psicológica reduz de forma significativa a capacidade de funcionar, se concentrar ou produzir. Aqui vemos uma ironia importante: estar presente fisicamente pode não significar estar de fato disponível para o trabalho. É aquele ditado, corpo presente, mente ausente.
Pense naquele profissional que normalmente resolve um problema em trinta minutos e passa duas horas tentando concluir uma tarefa simples. Ele começa a acreditar que está ficando incompetente, quando, na verdade, está funcionando sob uma carga emocional muito elevada. Chega em casa depois de um dia inteiro de trabalho, mas não tem energia para conversar, brincar com os filhos, encontrar amigos ou fazer qualquer coisa de que goste. Isso afeta os relacionamentos, o lazer, o sono, o autocuidado.
A saúde mental interfere não apenas na produtividade, mas também no funcionamento social, relacional e físico. Aqui estamos falando de transtornos mentais, tanto os ocasionados pelo ambiente de trabalho quanto por outros motivos. Sejam quais forem as causas, elas afetam a produtividade.
O ciclo vicioso do presenteísmo
O presenteísmo pode criar um círculo bastante desgastante. A pessoa não está bem, mas continua trabalhando. Produz menos, percebe a própria queda de rendimento e sente culpa ou medo, culpa por produzir menos e medo de ser dispensada. Para compensar, aumenta o esforço, e isso a deixa ainda mais exausta, o que faz com que continue mal. E voltamos ao mesmo ciclo.
Imagine alguém que percebe que está entregando menos do que de costume e, com medo de ser notado, passa a trabalhar até mais tarde para compensar. Dorme menos, chega mais cansado no dia seguinte, erra mais uma vez, e o esforço extra vira parte do problema.
Esse desgaste envolve sofrimento humano, além da perda de produtividade. Ele agrava quadros de ansiedade, depressão e burnout, porque a pessoa sobrecarrega constantemente o próprio sistema nervoso para conseguir funcionar enquanto adoece. O esforço para manter as aparências drena a energia disponível, e a pessoa chega em casa sem energia para os relacionamentos, o lazer e o autocuidado. Esse esgotamento que começa no trabalho se espalha para a vida pessoal, e também volta para a vida profissional, porque a qualidade do trabalho cai, os erros aumentam e a criatividade desaparece. A pessoa pode até ser vista como desmotivada ou pouco engajada, quando, na verdade, está doente.
Sinais de alerta no trabalho
O que acontece muitas vezes é que a pessoa continua chegando pontualmente todos os dias, mas começa a dizer “não sei o que está acontecendo comigo”. Esquece coisas simples, perde a paciência, não consegue se concentrar, passa a precisar de muito mais tempo para realizar as mesmas tarefas.
Não estou propondo aqui um autodiagnóstico, mas algumas características merecem atenção: demora incomum para realizar tarefas, erros que não eram habituais, dificuldade de concentração, esquecimentos, necessidade de revisar repetidamente o próprio trabalho, procrastinação, dificuldade para tomar decisões, participação reduzida em reuniões, irritabilidade, perda de iniciativa, queda de qualidade mesmo trabalhando muitas horas. Esses sinais podem indicar que sua saúde mental precisa de uma avaliação profissional.
Por que as pessoas continuam trabalhando doentes
Sabemos que as pessoas costumam relutar em procurar ajuda para avaliar sua saúde mental e as condições em que trabalham. Para algumas, trabalhar não é apenas uma atividade, é parte central da identidade, e por isso continuam mesmo com o psicológico afetado. Algumas entendem que, se pararem, estão falhando. Outras imaginam que tem gente em situação pior e seguem em frente. Muitas acreditam que precisam ser fortes. Some a isso a preocupação de não deixar os colegas na mão, o medo de perder o emprego, o receio do julgamento alheio, achar que o outro vai pensar que está inventando, e a dificuldade de reconhecer os próprios limites.
Absenteísmo ou presenteísmo?
Um funcionário que precisa de dois dias para se recuperar perde dezesseis horas de trabalho. Outro pode passar três semanas trabalhando doente, produzindo bem abaixo da própria capacidade, cometendo erros e aumentando o próprio desgaste. Isso nos leva a uma pergunta difícil: o que é pior, o absenteísmo ou o presenteísmo?
É complicado responder olhando para tudo o que está envolvido. Mas há situações em que o presenteísmo é especialmente preocupante: quando o trabalho exige concentração, julgamento, responsabilidade ou segurança. Pense no motorista, no médico, no operador de máquina, no piloto, no enfermeiro ou no profissional responsável por decisões financeiras trabalhando em condições cognitivas comprometidas. Nesses casos, a questão deixa de ser só produtividade e passa a envolver segurança e qualidade do trabalho.
Pesquisas nos Estados Unidos indicam que o presenteísmo tende a custar às empresas bem mais do que o absenteísmo. A pessoa presente, mas doente, comete erros que geram retrabalho e sobrecarregam o time inteiro, além de poder contaminar colegas em casos de doenças infecciosas.
Quando procurar ajuda profissional
Se você tem pensado em desistir ou tem dificuldade para começar tarefas simples, se ansiedade ou desânimo estão presentes todos os dias, se você está usando álcool ou outras substâncias para conseguir aguentar o trabalho, ou se sua vida pessoal e seus relacionamentos já estão sendo afetados, o primeiro passo é procurar um psicólogo ou psiquiatra. A psicoterapia pode ajudar a entender a raiz da dificuldade em se afastar, seja medo, culpa ou perfeccionismo, e a desenvolver estratégias para lidar com a pressão.
O preço da cultura da produtividade
A cultura da produtividade nos ensinou que descansar é fraqueza, que parar é falhar, que nosso valor está no que produzimos. Mas os números mostram o preço que estamos pagando: mais de meio milhão de trabalhadores afastados por transtornos mentais em um único ano. Isso não é fracasso individual, é sintoma de um sistema que adoece.
O presenteísmo é a ponta desse iceberg. É o corpo que vai ao trabalho enquanto a mente pede socorro, é a pessoa que continua funcionando, sem que ninguém pergunte a que custo.
Se você se reconheceu nesse texto, não se cobre por não estar bem, não se culpe por não dar conta. Busque ajuda, fale com um profissional, reconheça seus limites. E se você lidera uma equipe, uma empresa ou uma instituição, olhe para as pessoas ao seu redor. Às vezes, o funcionário mais quieto é o que mais está sofrendo. Às vezes, quem nunca falta é quem mais precisa de uma pausa.
A saúde mental não é um luxo, é um direito. E nenhum trabalho, por mais importante que seja, vale mais do que a sua vida.

