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Historicamente, nos esportes em geral e no futebol em particular, o foco sempre foi muito maior no preparo técnico, tático e físico do que no preparo mental. Principalmente no futebol masculino, onde questões machistas ainda pesam bastante. Durante muito tempo, emoção foi vista como sinal de fragilidade. Expressões como “engole o choro” ou “atleta forte não reclama” ainda fazem parte da cultura esportiva, mesmo hoje.
Outro motivo, talvez o mais óbvio: o físico é mensurável. Peso, velocidade, resistência, tudo isso a gente mede com números e gráficos. Emoção é mais complexa. É muito mais fácil medir a frequência cardíaca de um atleta do que quantificar o medo de falhar diante de milhões de pessoas assistindo.
Mas, ainda bem, isso está mudando. Cada vez mais equipes profissionais incluem psicólogos em suas comissões técnicas e o motivo é simples: o desempenho máximo de um esportista exige integração entre corpo e mente. O equilíbrio emocional precisa ser trabalhado com a mesma seriedade que se treina o corpo, porque ele é parte indissociável do desempenho.
A seleção brasileira
Em 2014, o Brasil tinha uma psicóloga em sua comissão técnica, a Regina Brandão. Mas, depois da eliminação histórica diante da Alemanha, no 7 a 1, toda a comissão técnica foi desligada. Junto dela, foi embora também o trabalho psicológico.
Nos dez anos seguintes, os técnicos que passaram pela seleção não contaram com nenhum psicólogo. Só em 2024 a CBF voltou a incluir uma psicóloga na comissão, a Marisa Santiago. E foi só na Copa do Mundo de 2026, doze anos depois daquela eliminação, que a seleção voltou a ter acompanhamento psicológico especificamente durante um Mundial.
Durante esses anos sem o suporte, a seleção e suas comissões foram bastante criticadas por especialistas da área. Os técnicos deram diferentes justificativas para a ausência. Mas o que ficou, para nós torcedores, é a sensação de que, naquele momento, a superstição e o machismo pesou mais do que a ciência e o bom senso.
O que faz o psicólogo do esporte?
A função central é integrar mente e corpo para o desempenho máximo. Mas isso, na prática, se desdobra em várias frentes: antes, durante e depois de uma competição.
O psicólogo prepara a mente do atleta para lidar com a pressão. Ajuda a processar tanto vitórias quanto derrotas, porque ambas precisam ser elaboradas emocionalmente, não apenas vividas. Se a equipe venceu, o trabalho ajuda a evitar a euforia desregulada, que pode comprometer os próximos jogos por excesso de confiança. Se perdeu, ajuda a transformar a frustração em aprendizado, sem que o jogador se sinta culpado ou destruído por aquilo.
Resultado não é identidade
Talvez a contribuição mais importante da psicologia do esporte seja essa: ajudar o atleta a entender que ele tem resultados, mas não é os seus resultados.
O resultado é circunstancial. Muda de jogo para jogo, de temporada para temporada. Ele se refere ao desempenho. A identidade, por outro lado, é mais ampla e mais permanente: ela se refere a quem a pessoa é, não ao que ela produziu naquele domingo.
Isso fica especialmente claro em momentos de transição de carreira, quando uma lesão grave encerra precocemente uma trajetória, por exemplo. Atletas que construíram toda a identidade em torno do desempenho costumam sofrer profundamente nessas transições, porque sentem que perderam não só a carreira, mas quem eram. O psicólogo do esporte trabalha exatamente para que o atleta construa uma identidade que vá além do campo, para que ele seja alguém que joga futebol, e não apenas um resultado de uma partida ou campeonato.
O peso das redes sociais
O psicólogo também trabalha com as pressões dos torcedores, que hoje são muito mais intensas e individualizadas por causa das redes sociais.
Um erro em campo, antes, ficava restrito ao estádio e ao jornal do dia seguinte. Hoje, em poucas horas, um jogador pode receber milhares de comentários, muitos deles agressivos, indo direto ao ponto mais pessoal: aparência, vida familiar, inteligência. O atleta não é mais julgado só durante os noventa minutos. É julgado 24 horas por dia, com o celular na mão na hora de dormir.
Mas o impacto também pode ser positivo, depende de como o atleta interpreta a pressão.
Pressão: Combustível ou Sofrimento?
Pense num jogador que vai cobrar um pênalti decisivo e ouve a torcida gritando. Se ele interpreta aquilo como “eles acreditam em mim“, a pressão vira combustível, o corpo relaxa, a precisão aumenta. Mas se ele interpreta como “se eu errar, serei odiado“, o corpo enrijece, os músculos tensionam, e a precisão cai justamente no momento em que mais precisa dela.
O trabalho do psicólogo é transformar esse diálogo interno, que todos temos, mas que o atleta vive sob pressão extrema. Ajuda o jogador a entender a “|cultura do erro”: que errar é humano, e não anula o talento construído ao longo de uma carreira. Em vez de um “diálogo interno de juiz“, que pensa “vou ser massacrado se eu errar“, o psicólogo ajuda a desenvolver um “diálogo interno de torcedor“, que pensa “eu confio no meu treino, vou fazer o meu melhor“.
Quando o atleta entende a pressão como sofrimento, ele tende a evitar jogadas arriscadas, a jogar na defensiva, com medo da crítica. E acaba rendendo bem menos do que é capaz.
Vitórias e Derrotas
A vitória não deve gerar onipotência. A derrota não deve gerar destruição. Uma equipe campeã comemora, mas continua treinando, porque sabe que sucesso exige continuidade, não repetição automática.
A maturidade no esporte é aprender a ganhar sem arrogância e perder sem perder a si mesmo. E isso é treinável, não é um traço de personalidade fixo que alguns têm e outros não.
Atletas também adoecem
Um ponto fundamental: um jogador pode ser extremamente talentoso e, ao mesmo tempo, apresentar ansiedade, depressão ou qualquer outro sofrimento psicológico que influencia tanto sua vida pessoal quanto seu desempenho dentro de campo.
Ser atleta de alto rendimento não é sinônimo de saúde mental perfeita. Pelo contrário: a pressão constante, a exposição pública e a cobrança por resultados tornam atletas particularmente vulneráveis a transtornos de ansiedade, depressão, burnout, transtornos alimentares, distúrbios do sono e até uso abusivo de substâncias. Um psicólogo na equipe está numa posição privilegiada para identificar esses sinais antes que se agravem.
Conflitos
Equipes não fracassam só por falta de talento. Muitas vezes fracassam por conflitos mal administrados.
Dois jogadores extremamente habilidosos podem comprometer o rendimento coletivo se houver rivalidade entre eles, ou se não houver entrosamento entre a equipe e a comissão técnica. Administrar esses conflitos, dentro e fora de campo, aumenta o rendimento de forma mensurável.
Uma equipe campeã, com frequência, não é a que reúne os melhores atletas individualmente. É a que tem mais coesão e confiança mútua. O diferencial, principalmente num esporte coletivo como o futebol, raramente está em quem brilha mais, está em quem consegue jogar junto.
Finalizando
Esperamos, como torcedores, que a psicologia do esporte se torne definitivamente parte das comissões técnicas, como já está começando a acontecer.
E que essa mudança alcance não só os atletas, mas também a equipe técnica, os clubes e os próprios torcedores. Para que possamos exigir que nossos atletas estejam bem assistidos, não só no corpo, mas também na mente.
Porque o futebol não se joga só com os pés. Ele se joga com a cabeça, com a emoção, com a forma como o atleta lida com a vitória, a derrota, a pressão e o erro.
E se há uma lição que fica, é esta: a mente não é um acessório do corpo. Ela é parte do jogo. E precisa ser treinada com a mesma dedicação que se treina um chute, um passe ou uma jogada ensaiada.

