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Religiosidade/ Espiritualidade (R/E) e Saúde Mental

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Olhar para o ser humano sem considerar o seu lado espiritual é sempre um olhar incompleto. É como enxergar só metade de uma fotografia: você vê alguma coisa, mas sabe que está faltando um pedaço importante da cena.

Durante muitos anos, a ciência e, em especial, a Psicologia, deixou a espiritualidade e a religiosidade de lado. Em parte, isso é compreensível. Para se firmar como ciência, com métodos próprios, pesquisas e reconhecimento acadêmico, a Psicologia precisou, num primeiro momento, se afastar de temas que geravam muitas controvérsias como os ligados à fé. Foi quase um movimento estratégico naquele contexto histórico.

Algumas abordagens tentaram nadar um pouco contra essa corrente, como a psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a psicologia transpessoal que veio um pouco depois, e antes deles William James, que estudou profundamente a experiência religiosa. Mesmo assim, como campo científico, a Psicologia passou muito tempo mantendo esses assuntos na periferia da discussão.

Enquanto isso, a religiosidade e a espiritualidade sempre acompanharam a humanidade. Não importa se falamos de Ocidente ou Oriente, de Hemisfério Norte ou Hemisfério Sul do planeta: em todos os povos, antigos e atuais, encontramos formas de crença, rituais, narrativas e símbolos que organizam o modo como as pessoas sentem, pensam e se relacionam com a vida.

Esse interesse mais profundo da psicologia por tais temas é relativamente recente. Nas últimas duas décadas, cresceu muito o número de pesquisas na área da Psicologia da Religião. Hoje, quem acessa bases científicas como a Scielo e Pubmed encontra estudos analisando desde os efeitos da fé na saúde mental até o papel da espiritualidade em situações de crise, luto e adoecimento.

Quando fiz faculdade de Psicologia, quase não se falava disso. Religiosidade e espiritualidade eram assuntos raros em sala de aula, muitas vezes evitados. Hoje, com mais pesquisas disponíveis, já entendemos melhor a importância dessas dimensões tanto na saúde física quanto na saúde mental. E é sobre essa última que quero focar.

Ignorar a espiritualidade ou a religiosidade de um paciente, quando isso é central na vida dele, é negligenciar uma parte essencial de quem ele é. Por isso, perguntar sobre esses aspectos não é um detalhe, nem curiosidade. É um elemento importante para construir estratégias terapêuticas mais eficazes, mais humanas e mais completas.

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Mas, afinal, do que estamos falando quando usamos esses termos: Espiritualidade e Religiosidade?

Espiritualidade, aqui, é uma dimensão ligada à busca de sentido, propósito e conexão com algo maior do que a própria pessoa. Essa conexão não exige religião, nem dogmas, nem instituição. Esse “algo maior” pode ser entendido como a natureza, o universo, a humanidade, um princípio superior ou algo que vai além do que conseguimos nomear. A espiritualidade é uma busca pessoal e subjetiva, a forma como cada um se relaciona com o que sente como transcendente.

Uma pessoa pode, por exemplo, sentir paz caminhando sozinha na natureza, criando um hábito de gratidão diária, meditando, refletindo sobre a vida, sem frequentar nenhuma igreja. A sensação de estar ligada a algo maior, de fazer parte de um todo, de que a vida tem um significado, é uma expressão dessa espiritualidade. Essa conexão é direta, sem “intermediários”.

Já a religiosidade diz respeito à religião enquanto sistema organizado de crenças, práticas, rituais e códigos morais, compartilhados por um grupo. Aqui entram os dogmas, os textos sagrados, os líderes religiosos, as instituições. Se você frequenta uma igreja ou templo, participa de cultos, celebra festas religiosas, segue orientações de uma tradição e transmite isso à família, está exercendo a sua religiosidade.

Espiritualidade e religião se relacionam, mas não são sinônimos. A espiritualidade pode existir sem religião. Uma pessoa pode se considerar profundamente espiritualizada e não se identificar com nenhuma religião formal. Por outro lado, é possível participar ativamente de uma instituição religiosa sem necessariamente viver uma experiência espiritual profunda (quando tudo vira apenas um conjunto de gestos automáticos, regras e hábitos repetidos).

Idealmente, a religião seria um caminho para favorecer a espiritualidade, um espaço de encontro com o transcendente, com o outro e consigo mesmo. Mas, quando se perde essa dimensão viva, a religião pode se tornar apenas um sistema rígido, sem espaço para perguntas, conflitos internos e singularidade.

Por isso, a pergunta central não é se você é ou não é religioso, e sim: Como você vive a sua espiritualidade? Como você vive sua religiosidade? Essa vivência te ajuda a ser uma pessoa melhor? Te conecta mais com o mundo e com as pessoas? Ajuda você a atravessar as crises da vida com um pouco mais de recurso interno? Traz consolo nos momentos de sofrimento?

Quando vividas de forma saudável, espiritualidade e religiosidade podem ser fatores de proteção para a saúde mental. Uma pessoa em tratamento de câncer, por exemplo, pode encontrar força na fé, na oração e no apoio da comunidade religiosa, o que fortalece sua resiliência emocional. Alguém em luto pode encontrar conforto em rituais como, por exemplo acender uma vela, fazer uma oração, participar de uma missa ou cerimônia, ao mesmo tempo em que segue em psicoterapia. Uma coisa não exclui a outra, elas se complementam.

Ao reconhecer a importância desses elementos na vida do paciente, o psicólogo precisa respeitar essa dimensão como parte da visão de mundo dele. É essencial entender como a fé está ajudando (ou, em alguns casos, dificultando) o enfrentamento de determinada situação. Às vezes, a espiritualidade fortalece; outras vezes, crenças distorcidas podem aumentar culpa, medo ou ideias de castigo.

Hoje, a psicologia fala cada vez mais do ser humano em um modelo “biopsicossocioespiritual”: biológico, psicológico, social e também espiritual. Quando incluo essa dimensão no processo terapêutico, estou acolhendo o paciente de forma mais integral. Isso tende a fortalecer a confiança na relação e amplia as possibilidades de ressignificar o sofrimento.

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No passado, muitos pacientes abandonavam a terapia porque sentiam que sua fé era motivo de estranhamento, piada velada, julgamento ou, simplesmente, silêncio. Isso gerava uma sensação de não ser visto por inteiro, de não caber naquele espaço. Quando alguém sente que precisa “deixar a fé do lado de fora da porta” para entrar no consultório, perde-se uma parte importante da experiência dessa pessoa.

As pesquisas também apontam que uma vivência espiritual saudável desde a infância pode trazer benefícios na vida adulta, desde que essa vivência não seja marcada por medo, ameaça ou trauma. Uma criança que cresce num ambiente que valoriza compaixão, cuidado com o outro, sentimento de pertencimento e solidariedade tende a desenvolver empatia e um senso de propósito. Já uma criança que é ensinada, por exemplo, que “doença é castigo de Deus” ou que vive sob ameaças espirituais constantes, pode carregar culpa excessiva, medo e ansiedade na vida adulta.

Vivências religiosas saudáveis costumam oferecer redes de apoio, pessoas que acolhem, ajudam, escutam e também recursos internos, como a prática da gratidão, a oração, a meditação, que podem colaborar na regulação das emoções. Em muitos contextos, o envolvimento comunitário também se relaciona a menor uso abusivo de substâncias e a estilos de vida com menos comportamentos de risco, especialmente na adolescência.

E aqui chegamos a um ponto delicado e muito importante: a fé R/E do profissional (quando ele tem alguma no âmbito particular).

A fé do psicólogo não pode e não deve, conduzir o tratamento. Existe um limite ético muito claro. O consultório não é lugar para impor crenças, fazer convite religioso ou usar a posição profissional para influenciar espiritualmente o paciente. O papel do psicólogo não é converter ninguém a nada, nem usar sua fé como régua para medir o que é certo ou errado na vida do outro.

Na prática, isso significa que o psicólogo pode ter sua fé pessoal, seu caminho espiritual, seus rituais mas eles ficam do lado de fora da condução do processo terapêutico. Dentro da clínica, o foco é sempre o sofrimento, a história e a demanda do paciente. É a fé do paciente que importa ali, e apenas se ele quiser trazê-la para a conversa.

O que separa uma prática ética de uma prática perigosa é a postura. No consultório, não cabe aconselhamento religioso, nem julgamento espiritual, nem disputa de crenças. Cabe escuta, respeito e cuidado. A espiritualidade do paciente pode ser uma aliada importante no processo desde que seja ele a trazer, e não o terapeuta a empurrar.

No fim das contas, o objetivo é que a pessoa se sinta inteira ali: corpo, mente, história, vínculos e, se for importante para ela, sua fé. No tratamento psicológico, não cabe aconselhamento religioso, julgamento ou imposição de fé. Cabe escuta, respeito e cuidado. E é justamente aí que mora a riqueza desse encontro.

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