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Já falamos aqui sobre o papel das redes sociais na formação da nossa subjetividade. E quando digo “nossa”, não falo só das pessoas lá fora, falo de mim também, que hoje me ponho a pensar em alcance, em engajamento, em como uma mensagem vai performar antes mesmo de pensar só no meu conteúdo.
Pense numa cena bem comum: você posta uma foto e passa a tarde inteira olhando o celular, contando quantas pessoas curtiram. Se vêm poucos likes, um certo desânimo bate. Se vêm muitos, uma alegria rápida, que passa em minutos. Isso acontece com quase todo mundo hoje, dos adolescentes até nós, adultos. E o motivo é simples: aquele número virou, para muita gente, uma espécie de termômetro do próprio valor.
Costumo dizer que estamos vivendo uma época em que a imagem que se mostra, ou a quantidade de seguidores que se tem, parece dizer mais sobre uma pessoa do que suas virtudes, seu caráter, sua história. E o algoritmo colabora com isso: ele não obriga ninguém a nada, mas direciona fortemente a gente naquela direção, criando possibilidades de escolha em que o caminho mais fácil parece ser o único. É mais fácil, e mais recompensado na hora, investir na aparência do que investir em qualidades que não geram likes nenhum, como paciência, honestidade, lealdade, profundidade. Por isso ainda cabe a nós a escolha de resistir a esse caminho mais fácil. Se o algoritmo anulasse por completo nossa capacidade de decidir, não faria sentido falar em responsabilidade, nem em educação, nem em escolha nenhuma. Mas ele exige de nós uma resistência ativa, porque a direção padrão já está desenhada.
Temos visto denúncias recentes, inclusive nas próprias redes, sobre crianças sendo estimuladas (muitas vezes pelos próprios pais) a se comportar e se apresentar visando aprovação e alcance, antes mesmo de terem maturidade para entender o que isso significa. Não é sobre julgar esse ou aquele pai isoladamente, mas reconhecer um fenômeno maior: quando o valor de uma criança, ou de qualquer um de nós, passa a ser medido pela aparência que produz, vamos deixando de cultivar outras qualidades (aquelas que, no fim das contas, são as que realmente nos formam como seres humanos).
E para entender melhor essa armadilha, vale separar três palavras que a gente costuma confundir: fama, reconhecimento e sucesso.
Fama
Muitos desses movimentos, feitos por pais ou pelas próprias crianças e jovens, nascem de uma busca desenfreada pela fama. Fama é exposição pública, é ser conhecido por muita gente. Ela traz visibilidade, abre portas, traz oportunidades profissionais e até recursos financeiros. Às vezes a fama nasce de um talento ou de uma competência genuína, que o público reconhece e passa a acompanhar. Outras vezes nasce só de exposição, de um escândalo, de sorte de algoritmo, sem relação nenhuma com suas competências. E boa parte da dificuldade está justamente aí: de fora, muitas vezes é difícil distinguir uma fama da outra. Mas cobra um preço alto. A perda da privacidade é um dos mais pesados: você vira alvo constante de crítica, fica refém de uma imagem, perde a possibilidade de viver de forma anônima. Uma pessoa muito conhecida pode nem conseguir ir ao mercado ou passear com a família sem ser fotografada, observada, julgada. Como tudo na vida, a fama amplia possibilidades, e amplia também cobranças.
A fama atrai porque mexe com necessidades humanas fundamentais: a de pertencer, a de ser reconhecido por alguma competência e a de ter impacto no outro. E culturalmente ela é vendida como se fosse prova de que alguém vale a pena. Uma jovem que sonha em cantar pode pensar: “se eu ficar famosa, ninguém mais vai me chamar de medíocre.” A fama vira uma armadura contra feridas antigas. Só que armadura pesa, e com o tempo pode sufocar quem a carrega.
Pense num criador de conteúdo que faz pegadinhas cada vez mais perigosas e ofensivas, mesmo correndo risco de processo, só para não perder seguidores. Nesses casos, a fama quase vira uma droga, que exige doses cada vez maiores de exposição para produzir o mesmo efeito. Esse tipo de comportamento pode revelar características narcisistas mais acentuadas (uma necessidade excessiva de admiração, uma busca intensa por chamar atenção) ou simplesmente uma dependência grande de validação externa, com as redes funcionando como termômetro do próprio valor. Isso ajuda a entender por que tantas pessoas famosas, que aparentemente têm tudo, acabam caindo em uso excessivo de álcool, remédios ou drogas, ou enfrentando depressões profundas: por trás da exposição, muitas vezes existe uma sensação de vazio imenso. Quando a nossa motivação vem só de fora (do aplauso, do seguidor, da aprovação alheia) ela sustenta muito menos o nosso bem-estar do que quando vem de dentro, da sensação genuína de estar fazendo algo bem feito, por escolha própria, e de estar conectado com quem realmente importa para a gente.
Reconhecimento
Fama não garante que a pessoa seja reconhecida por alguma competência real, ou por sua trajetória de vida como vimos. É possível ter fama sem reconhecimento verdadeiro. Na era das redes, muitos dos likes que deveriam funcionar como reconhecimento acabam sendo vazios.
Pensa numa situação bem comum no trabalho: seu chefe diz que você é ótimo profissional, elogia em público, mas continua te sobrecarregando de tarefas e nunca te promove, nunca te dá um aumento. Esse elogio é vazio. Agora, se esse mesmo chefe passa a te chamar para as reuniões importantes, pede sua opinião antes de decidir algo, te defende quando alguém te critica (isso é reconhecimento de verdade, porque vem acompanhado de ação). A gente sabe que está sendo reconhecido de verdade quando o outro muda o comportamento e não só quando ele nos elogia.
Esse reconhecimento verdadeiro aparece em três momentos do dia a dia. Primeiro, na fala: um elogio direto, um “seu trabalho foi essencial nesse projeto”, dito olho no olho. Segundo, na atitude: pedirem sua opinião, te incluírem numa decisão, te procurarem quando precisam de conselho. E terceiro, em mudanças concretas na sua vida: um aumento, uma promoção, mais liberdade para trabalhar do seu jeito, um convite para ensinar o que você sabe. É isso que sustenta de verdade, não o aplauso passageiro.
Por isso, reconhecimento não é a mesma coisa que popularidade. Uma pessoa pode ter um milhão de seguidores e se sentir completamente invisível. E outra pode ter apenas cinco pessoas próximas que a conhecem profundamente e se sentem honradas por ela existir. Pensa no artista famoso a quem, nos bastidores, ninguém pergunta como ele está de verdade. E pensa na professora aposentada que, vinte anos depois, recebe uma mensagem de um ex-aluno agradecendo por ter mudado sua vida. Quem foi mais reconhecido? A fama é larga. O reconhecimento é profundo.
E tão importante quanto o reconhecimento que vem do outro é o reconhecimento que a gente faz de si mesmo. Uma pessoa emocionalmente saudável consegue sentir orgulho da própria trajetória mesmo nos dias sem nenhum aplauso. É esse reconhecimento interno que, no fim das contas, nos sustenta quando ninguém mais está olhando.
Sucesso
Existe ainda uma terceira palavra importante aqui: sucesso. O sucesso está ligado à realização de objetivos e a um sentimento de propósito. Ele tem algo de muito íntimo: dá para sentir sucesso de um jeito pessoal, mesmo sem reconhecimento externo nenhum. Diferente da fama, o sucesso nem sempre aparece, nem sempre é visível para os outros. Por isso é perfeitamente possível ter sucesso sem fama nenhuma, ter fama sem sentir realização pessoal, e ter reconhecimento verdadeiro sem grande visibilidade.
Na clínica, ouço com frequência pacientes dizerem que querem “ter sucesso na vida“. E quando vamos trabalhar esse tema, costumo explicar que sucesso funciona como consequência de uma prática deliberada, da dedicação repetida dia após dia: do se aprimorar um pouquinho a cada vez, com atenção ao que precisa ser ajustado, naquilo que se faz. Quando a atenção está no processo e no aprendizado, e não só no resultado imediato, a pessoa costuma persistir mais e crescer mais. O sucesso, nessa forma de olhar, se torna consequência natural de uma vida alinhada com valores, esforço e paixão pelo que se faz.
Pensa numa jovem que sonha em competir numa maratona importante. No início, ela não tem os melhores tempos, ninguém quer patrocinar, e muita gente ao redor duvida que ela vá longe. Se ela olhasse só para a medalha, poderia se sentir fracassando por anos seguidos. Mas ela decide focar no caminho: treina todos os dias, ajusta pequenos detalhes da respiração e da postura, cuida da alimentação, do sono, aprende com cada derrota, mantém o gosto pela corrida mesmo quando os resultados demoram a aparecer. Até que, numa competição, ela finalmente entrega um resultado que chama atenção de patrocinadores e técnicos. O sucesso chegou, mas não nasceu daquele dia de vitória. A medalha foi apenas a parte visível de anos de dedicação que ninguém viu.
Isso vale muito para educarmos nossos filhos. Vale mais valorizar o processo, o caráter, o aprendizado, do que só o resultado final. Em vez de perguntar “quanto você tirou na prova?“, vale perguntar “o que você aprendeu de novo hoje?“, “que estratégia você usou para resolver esse problema difícil?” ou “como você ajudou alguém na escola?“. Isso ensina, aos poucos, que crescer e se conectar com o outro importa tanto quanto o resultado. E o sucesso tem significados diferentes para cada pessoa: para alguns, é tocar um negócio próprio; para outros, é construir uma família; para outros ainda, é simplesmente trabalhar naquilo que ama, mesmo ganhando pouco. Educar para o sucesso é, acima de tudo, ensinar a construir uma vida com significado.
E vale aplicar esse mesmo raciocínio a nós mesmos. Muita gente se pergunta: como ter orgulho da própria trajetória? Como fazer as pazes com o próprio passado? A primeira coisa é lembrar que cada um de nós tem uma história única, então comparação ou competição com o outro não ajuda muito aqui. O que realmente vale é se comparar com a própria versão de dez anos atrás, e enxergar o quanto se mudou, sabendo que cada pessoa parte de um ponto diferente e enfrenta desafios diferentes. Toda trajetória de vida tem acertos, erros, perdas e recomeços. Às vezes um fracasso profissional é exatamente o que leva alguém a encontrar um caminho mais alinhado com quem ela realmente é. Ter orgulho da própria história não significa achar que tudo foi perfeito. Significa reconhecer que você fez o melhor que pôde, com os recursos que tinha, em cada etapa da sua vida.
E é isso, no fundo, que eu queria trazer: você não precisa de mais seguidores, mais curtidas ou mais alcance para valer alguma coisa. A fama pode até nascer de algo real e valioso em você, mas ela sozinha nunca garante isso, porque também pode nascer só de timing, de exposição, de sorte. O reconhecimento é mais confiável, porque quem reconhece de verdade está enxergando algo sólido em você, demonstrado ao longo do tempo. E o sucesso nasce de dentro, da coerência entre quem você é e o que você faz, dia após dia. Talvez a pergunta que valha a pena fazer não seja “quantos me veem?“, mas “o que estão vendo, quando me veem? E o que eu sei, sobre mim, que ninguém precisa ver para ser verdade?“


