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Transtorno Esquizoafetivo: o que é?

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Vamos falar sobre um transtorno emocional pouco comentado na mídia e, muitas vezes, pouco conhecido até por quem trabalha na área. Um transtorno que carrega características de dois outros e, por isso, pode ser confundido com ambos. Estou falando do transtorno esquizoafetivo.

Como o próprio nome sugere, ele junta dois conjuntos de sintomas: os sintomas psicóticos, parecidos com os da esquizofrenia, e os sintomas de alteração de humor, como os que aparecem na depressão maior ou no transtorno bipolar. E pra entender melhor, deixa eu trazer um exemplo clássico.

Imagine alguém do seu trabalho que começa a acreditar, de um jeito que ninguém consegue tirá-la disso, que os colegas estão combinando gestos pra provocá-la. Um suspiro vira provocação. Um olhar rápido vira deboche. Até o jeito de tossir parece um sinal secreto. Não é só desconfiança. É convicção absoluta, aquilo que chamamos de delírio. Dentro, é ainda mais estranho. Essa pessoa sente como se seus pensamentos estivessem sendo invadidos ou roubados, como se alguém pudesse puxar ideias da sua cabeça. A pessoa percebe os próprios pensamentos como se estivessem sendo “falados em voz alta” dentro da mente, como um eco. Essa é a parte paranoica e psicótica do transtorno, muito parecida com o que acontece na esquizofrenia.

Só que… mesmo com tudo isso, ainda há mais. Agora imagine essa mesma pessoa caindo numa depressão profunda. Ela passa a acreditar que é a pior funcionária da empresa. Não tem ânimo pra nada, mal consegue sair da cama, perde o interesse por coisas de que gostava. E mesmo naqueles dias raros em que a tristeza dá uma folga, as convicções paranoicas continuam lá, firmes, constantes, por semanas. Muita gente olha e diz: “Ah, isso é estresse no trabalho, burnout, pressão demais.” E sim, isso pode até ser o gatilho, embora não explique tudo.

No transtorno esquizoafetivo, esses sintomas de humor (depressão ou mania) se misturam com os sintomas psicóticos, e às vezes os sintomas de psicose aparecem sozinhos por um período. Esse detalhe ajuda a diferenciar de outros transtornos.

O transtorno esquizoafetivo tem, sim, um componente genético importante, especialmente quando há histórico familiar de esquizofrenia ou de transtorno bipolar. Mas essa predisposição pode ficar “adormecida” por anos e só se manifestar quando encontra estressores fortes: pressão intensa, traumas, uso de drogas, alterações hormonais ou neurológicas. Tudo isso pode participar do desencadeamento de um surto.

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Na maioria das vezes, esse transtorno aparece entre o fim da adolescência e o início da vida adulta: mais ou menos entre os 16 e os 30 anos. Muitas vezes surge justamente naquela fase da faculdade, quando a rotina muda, as cobranças aumentam e o mundo começa a pesar um pouco mais.

Em relação ao gênero, não há uma diferença gigantesca na frequência. Alguns estudos apontam que o tipo com mais episódios depressivos pode aparecer um pouco mais em mulheres, e o tipo com mais episódios maníacos um pouco mais em homens. Isso é tendência geral, não regra.

E aqui entra um ponto importante: a pessoa pode tanto apresentar o lado depressivo quanto o lado maníaco ao longo da vida. Então imagine agora aquela mesma pessoa do exemplo anterior. Em vez de depressão, ela entra numa fase de mania.

Dormir? Duas ou três horas por noite. E acorda com uma energia inesgotável. A mente vira uma máquina de ideias: um curso novo, um negócio, um livro, tudo ao mesmo tempo… mas nada termina. Ela fala rápido, interrompe os outros, muda de assunto sem parar. Estoura o cartão de crédito. A autoestima sobe ao extremo: ela se vê como um gênio incompreendido, a pessoa mais inteligente da empresa, do bairro, do planeta. E fica furiosa se alguém tenta frear seus “planos brilhantes”.

A mania (assim como a depressão grave e os sintomas psicóticos intensos) é uma emergência psiquiátrica. Se você vê alguém nesse estado de euforia destrutiva, muito impulsiva, com paranoia, comportamento de risco, ou mergulhado numa depressão profunda, com ideias de inutilidade ou morte, é hora de agir rápido. Pode ser um episódio de transtorno esquizoafetivo ou de outro transtorno grave do humor, e a pessoa precisa de avaliação profissional urgente.

Nesses momentos, o tratamento precisa ser urgente e bem estruturado: medicação indicada por psiquiatra, psicoterapia e uma rotina organizada. Sono regular, menos estresse, evitar drogas e álcool, apoio familiar constante.

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É importante ter horários: pra comer, dormir, tomar a medicação, fazer atividades leves. Reduzir estímulos: discutir menos, evitar ambientes muito caóticos, diminuir barulho e excesso de demandas. E, nas crises, evitar críticas, confrontos diretos e cobranças pesadas. É hora de apoiar, ajudar no autocuidado e garantir segurança.

Agora, deixa eu reforçar algo essencial: o transtorno esquizoafetivo não é, por definição, sinônimo de incapacidade. Com tratamento adequado e acompanhamento contínuo, muita gente leva uma vida estável e com qualidade. Trabalha, estuda, tem família, sai com amigos, tem independência, faz planos para o futuro. Essa estabilidade vem de uma soma de fatores: tratamento contínuo, rede de apoio e hábitos saudáveis no dia a dia.

Com medicação bem ajustada, psicoterapia, psicoeducação e apoio psicossocial, a pessoa pode chegar a longos períodos de remissão, quando os sintomas ficam mínimos ou até ausentes.
E esse é o principal objetivo do tratamento. Claro, a vida costuma pedir alguns ajustes. Talvez não dê pra manter uma jornada de 50 horas semanais de trabalho. Talvez os estudos precisem de pausas, adaptações ou um ritmo diferente. Isso não é tão diferente do que acontece com quem tem, por exemplo, diabetes: a pessoa vive bem monitorando a glicose e ajustando a rotina.

A pessoa com transtorno esquizoafetivo vive bem monitorando o humor, o nível de estresse, o padrão de sono e a adesão ao tratamento. Perceber os primeiros sinais de piora (como sono muito alterado, aumento da irritabilidade, pensamentos desconfiados demais ou tristeza muito intensa) auxilia a procurar ajuda cedo e evitar crises maiores.

E a ferramenta que mais empodera nesse processo é a psicoeducação, a psicoterapia. Entender o transtorno, reconhecer os sinais, saber o que fazer, saber como pedir ajuda, tudo isso transforma a forma de viver com o diagnóstico. Também ajuda a família a sair do lugar do julgamento e ir pro lugar do cuidado.

O transtorno esquizoafetivo é sério, sim. Embora não seja uma sentença de incapacidade, nem o fim de um projeto de vida. Com diagnóstico preciso, tratamento integrado (medicação, psicoterapia, apoio psicoterapêutico) e uma rede de apoio sólida, é absolutamente possível construir uma vida produtiva, conectada e cheia de propósito.

O caminho é desafiador e a recuperação é real e acontece com muita gente.

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