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Esse fim de semana, assisti ao documentário “Preta: eu não ando só”, da Globoplay. E fiquei sabendo, com mais detalhes, a trajetória da cantora Preta Gil depois que recebeu o diagnóstico de câncer de intestino.
Para cada pessoa que recebe um diagnóstico de câncer, existe uma trajetória, e essa trajetória muitas vezes não termina em cura completa. No caso da Preta Gil, conforme mostrado no documentário, a metástase veio oito meses depois de decretado o fim do tratamento.
Muitos de nós acompanhamos os altos e baixos que ela passou: os momentos de esperança, os momentos de dor e angústia. Por ser uma figura pública, esse material está disponível em abundância nas redes sociais.
Uma das coisas que mais me tocou foi que ela mesma teve a ideia de registrar esses momentos, com a intenção de que pudessem servir de ajuda para outras pessoas que estivessem passando pela mesma situação. Então é com todo o respeito que me proponho, aqui, a olhar para esse material e aprender com ele sobre o comportamento humano. Essa é a minha função como psicólogo. E também a proposta deste blog, quando o idealizei.
A fé como sustentação
Em todos os momentos do documentário, chama a atenção a função não só dos amigos, mas também da religião, da fé e da esperança que ela nutria pela ciência. Tudo isso ficou especialmente evidente nas fases finais da sua luta contra a doença.
A fé é uma experiência de confiança, esperança e sentido diante da vida e daquilo que transcende o ser humano. É uma entrega, uma crença em algo que vai além da razão pura, seja Deus, os orixás, o universo, a vida, ou um propósito maior. No caso da Preta Gil, essa fé se expressava de formas muito concretas: a devoção aos orixás, a fé em Deus, as guias e cordões que ela levava no pescoço, a correntinha que a neta fez com amor para ela e também as tatuagens, uma em especial, que simbolizava suas relações de afeto com o grupo de amigos que dividia a mesma figura no dedo anular. Esses objetos e práticas a faziam se sentir fortalecida, amparada por algo maior do que a doença.
E a ciência confirma isso. Múltiplas pesquisas brasileiras e internacionais, incluindo revisões sistemáticas publicadas em periódicos científicos, mostram que a prática espiritual e religiosa está associada a menor nível de sofrimento emocional, melhor qualidade de vida e melhor bem-estar em pacientes oncológicos. Além disso, a espiritualidade contribui para a adesão ao tratamento, melhora da qualidade de vida e da saúde mental, além de diminuir o estresse.
Sabemos que o nível de esperança que a Preta Gil nutria não mudou o diagnóstico. Mas transformou a forma como ela atravessou essa doença enquanto vivia. E isso tem um valor imenso, que a medicina começa a reconhecer cada vez mais.
No caso da Preta Gil, fé e ciência não competiam. Caminhavam juntas. Ela parecia acreditar que Deus e os orixás atuavam através dos médicos, da pesquisa e dos tratamentos. Uma coisa não invalidava a outra. Uma contribuía com a outra.
A rede de apoio
O segundo ponto que quero trazer é a importância da rede de apoio: dos amigos. O documentário deixa isso evidente de forma emocionante.
Vemos a importância dos amigos não só durante o tratamento em si, mas também diante de uma situação de divórcio que aconteceu bem no meio de tudo. Assim que os amigos perceberam que a relação com o então marido não estava bem, que ele não estava presente como ela precisava, eles estiveram ali. O tempo todo.
E o que mais chama a atenção não é só a presença física deles. É o que essa presença fazia por ela emocionalmente. Parecia que os amigos ajudavam a sustentar a esperança dela quando ela mesma já não conseguia fazê-lo sozinha.
Existe um fenômeno descrito, principalmente nos cuidados paliativos: quando o paciente já não tem energia para acreditar no amanhã, o grupo assume essa função por ele. Enquanto ele está desanimado, os amigos lembram os horários dos remédios, fazem planos para a semana seguinte, continuam apostando na continuidade do tratamento. A esperança deixa de ser individual e passa a ser sustentada coletivamente, até que a pessoa consiga retomá-la por conta própria.
Por isso é tão importante entender o valor da rede de apoio quando alguém está passando por uma doença como essa. O documentário também deixa claro o valor do acompanhamento psicológico: a terapia ajuda a simbolizar e digerir limitações, expectativas, medos, e temas tão fundamentais quanto vida, morte e incapacidade.
E quem faz parte de uma rede de apoio de alguém com câncer precisa saber: ajuda concreta pode ser muito mais valiosa do que discursos motivacionais. Levar a pessoa a uma consulta, preparar uma refeição, acompanhar um exame, isso vale mais do que frases prontas. A presença costuma ser mais importante do que as respostas.
Uma pergunta simples “como posso te ajudar agora?” é muito mais poderosa do que “vai dar tudo certo.” Respeite o ritmo de quem está passando por isso. Algumas pessoas querem conversar; outras precisam de silêncio. Em vez de prometer o que não está em seu controle, você pode dizer: “estou ao seu lado, independentemente do que acontecer.” Às vezes, isso é tudo que alguém precisa ouvir.
A esperança
O terceiro ponto essencial é a forma como a Preta Gil manteve a esperança acesa, e o que aconteceu quando essa esperança se rompeu.
Enquanto os médicos davam possibilidades concretas de tratamento, a esperança dela tinha um endereço específico para onde ir. O estudo experimental nos Estados Unidos representava muito mais do que um medicamento. Representava uma nova possibilidade de futuro. A esperança criava uma expectativa muito concreta sobre como a cura poderia vir.
Todos sabemos que a esperança não cura uma doença grave. Mas sua perda pode alterar profundamente o comportamento da pessoa. Quando alguém conclui que “acabou“, podem surgir: redução alimentar, isolamento, diminuição da iniciativa, desistência dos pequenos movimentos cotidianos, aqueles que nos mantêm vivos não só no corpo, mas no espírito.
Quando a notícia do tratamento experimental não deu o resultado esperado, o que provavelmente aconteceu foi uma ruptura no horizonte. Ela, que até então conversava, fazia planos, se alimentava, passou a permanecer deitada, silenciosa, desinteressada por tudo, conforme relatos dos amigos no documentário.
Outro fator pode ter contribuído: grande parte dos amigos que a cercavam no Brasil (essa rede enorme de afeto e esperança compartilhada) não estava presente nos Estados Unidos, na sua integralidade. Quando essa rede desaparece num momento tão crucial, algumas pessoas sentem como se toda a sustentação emocional tivesse ido junto.
Talvez esse tenha sido o caso da Preta Gil. E eu diria: o que muitos poderiam interpretar como “perda de fé” foi, na verdade, algo diferente, foi uma perda de horizonte. Ela não deixou de acreditar numa espiritualidade maior. Mas talvez não conseguisse mais imaginar o amanhã. E quando uma perspectiva de futuro desaparece, algumas pessoas entram num estado de profundo recolhimento, não por fraqueza, mas porque o projeto de vida que sustentava a luta não existe mais.
Viktor Frankl e o sentido da vida
Aqui é impossível não trazer Viktor Frankl: psiquiatra austríaco que sobreviveu aos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e fundou a logoterapia, uma das abordagens psicológicas mais importantes do século XX.
Frankl observou que, mesmo nas condições mais extremas de sofrimento, as pessoas conseguiam sobreviver quando estavam convencidas de que havia um sentido para continuar vivendo. E formulou uma ideia que ficou famosa: “O homem pode suportar tudo, menos a falta de sentido.“
Frankl identificou que o sentido pode ser encontrado de três formas: pelo que fazemos — nossas criações, nosso trabalho, nosso legado; pelo que vivemos e amamos — as experiências, os vínculos, a beleza; e pela atitude que escolhemos diante do sofrimento inevitável. No caso da Preta Gil, os três caminhos estavam presentes. Ela criou, amou profundamente e escolheu uma atitude diante da doença que inspirou milhares de pessoas. Seu processo foi, em si, uma forma de sentido.
Quando uma pessoa recebe a notícia de que não há mais opções terapêuticas, ela não perde apenas um medicamento. Pode sentir que perdeu o projeto de futuro que vinha sustentando toda a sua luta. É a ruptura do horizonte que Frankl descreveu tão bem: não é o sofrimento que destrói, é a ausência de razão para suportá-lo.
Encerramento
A trajetória da Preta Gil nos ensina coisas profundas sobre o que significa viver e também sobre o que significa enfrentar o fim.
Ela nos mostra que a fé pode ser uma das forças mais concretas que um ser humano tem à disposição num momento de crise, não como fuga da realidade, mas como sustentação dentro dela. Que os amigos, quando presentes de verdade, carregam juntos o peso que uma pessoa sozinha não consegue mais carregar. E que a esperança, mesmo quando parece ingênua diante de um diagnóstico grave, é muitas vezes o que mantém o corpo em movimento e o espírito aberto ao próximo dia.
Quando a esperança se rompe, isso não significa uma falha de caráter ou de fé. Estamos diante de uma fratura no horizonte. E reconstruir um horizonte, quando tudo parece escuro, é uma das tarefas mais difíceis que um ser humano pode enfrentar.
Se você está passando por um momento difícil, seja uma doença, uma perda, uma crise, vale lembrar que a fé, a rede de apoio e a capacidade de imaginar um amanhã são recursos reais, com respaldo tanto da experiência humana quanto da ciência. Cuide dessas três coisas. E se o horizonte desaparecer, busque ajuda. Procure um psicólogo. Converse com amigos. Deixe que o grupo sustente a esperança por você, até que você consiga reencontrar a sua.
Porque, como nos ensinou Viktor Frankl, a vida nunca deixa de ter sentido. Mesmo no sofrimento. Mesmo no fim.
A Preta Gil deixou um legado que vai muito além da música. Deixou uma forma de atravessar a dor com coragem, com fé, com amizade, e com uma generosidade rara de tornar tudo isso público para que outros pudessem aprender com sua trajetória. Mesmo quando a esperança não foi suficiente para curar o corpo, ela foi suficiente para alimentar a alma, e para tocar a de tantas outras. Inclusive a minha que se inspirou na sua vida para pensá-la e aprender sobre o viver.
E isso, por si só, já é uma forma de vencer.


