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Dores do Corpo e da Alma: Dores

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Dores doem. E doem ainda mais quando quem as sente não é acreditado.

As dores crônicas (aquelas que não passam, que não “curam” completamente e que desafiam a expectativa de que a medicina sempre terá uma solução rápida) estão entre as experiências mais difíceis de viver. São dores que duram meses ou anos e mudam profundamente a rotina, os relacionamentos e até a forma como a pessoa se enxerga.

Além disso, existem as chamadas dores invisíveis: dores reais, intensas, mas que não aparecem com facilidade nos exames. Um exemplo clássico é a enxaqueca crônica. Muitas vezes os exames de sangue e de imagem não mostram nada de muito alterado, mas a dor está lá, latejando, incapacitante, transformando a vida da pessoa num verdadeiro martírio.

Há também as dores fortemente ligadas a questões emocionais, como nas chamadas dores de somatização. Nesses casos, o sofrimento psíquico se expressa no corpo, produzindo dor física real, mesmo sem uma lesão clara bem especificada nos exames.

Seja uma dor com causa médica bem definida, uma dor difícil de diagnosticar ou uma dor relacionada à saúde mental, há algo em comum entre elas: o sofrimento aumenta muito quando a pessoa é desacreditada.

Quem vive com dor crônica sofre não só com a dor em si, mas também com o estigma. Frases como “Se não aparece no exame, não existe”, “Você ainda está reclamando disso?” ou “Isso é coisa da sua cabeça” são ouvidas com frequência.

Essas falas geralmente nascem da dificuldade das pessoas em lidar com aquilo que não conseguem ver ou resolver. Só que, em vez de ajudar, acabam deslegitimando o sofrimento e aumentando ainda mais a carga emocional de quem já está fragilizado. E esse impacto psicológico não é detalhe: é parte central da manutenção e da piora da dor.

Hoje, a ciência já derrubou aquela ideia antiga de que “dor física é real e dor psicológica é frescura”. Toda dor é real. Toda dor é processada pelo cérebro. E a forma como o cérebro interpreta essa dor é profundamente influenciada pelo contexto emocional, social e ambiental. Pra entender isso, pensa numa situação simples: uma fratura, uma queimadura ou uma infecção. A mesma lesão pode ser sentida como muito mais intensa quando a pessoa está sob estresse, sozinha ou emocionalmente abalada. O ambiente e o estado emocional funcionam como um “amplificador” do sinal da dor.

No caso das dores crônicas, isso fica ainda mais evidente. Elas podem ser mantidas por fatores como o medo do movimento, o que a gente chama de cinesiofobia. A pessoa deixa de se mexer por medo de piorar a dor, e justamente essa falta de movimento pode perpetuar o problema. A dor também pode ser alimentada por dinâmicas familiares tensas ou por padrões emocionais que vão se cristalizando ao longo do tempo.

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Outro ponto importante são os chamados “ganhos secundários”, que não são conscientes nem planejados. A dor, sem que a pessoa queira, pode passar a cumprir uma função na vida dela. Por exemplo: se a dor é a única forma pela qual alguém recebe cuidado, atenção ou alívio de responsabilidades esmagadoras, o cérebro pode “aprender” a mantê-la como uma saída pra necessidades emocionais que não estão sendo vistas.

Imagina alguém que não consegue dizer “não” no trabalho, que vive sobrecarregado e sem limites claros. Em certo momento, as crises de dor acabam sendo a única forma de interromper essa pressão, funcionando como um limite que a pessoa não consegue colocar com palavras. Isso não é fingimento, não é teatro, não é manipulação. É um mecanismo inconsciente de sobrevivência.

A ciência da dor é relativamente recente e muito complexa. Nem sempre existe uma causa física localizada que explique a intensidade do sofrimento. Áreas como a psicossomática e a chamada psiconeuroimunoendocrinologia (um nome comprido pra dizer que mente, sistema nervoso, hormônios e imunidade conversam o tempo todo) mostram que a dor nasce dessa interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais.

Hoje se sabe que a dor crônica envolve mudanças no sistema nervoso central. O estresse psicológico crônico, junto com alterações hormonais e inflamatórias, pode deixar os neurônios mais “ligados”, mais excitáveis ou sensíveis. Com o tempo, cérebro e medula passam a reagir de forma exagerada a estímulos mínimos ou até mesmo na ausência de um estímulo claro. Ou seja, o problema deixa de ser só local e passa a ser sistêmico.

É justamente aí que a psicologia clínica tem um papel fundamental. O psicólogo parte do reconhecimento de que a dor é real e ajuda a pessoa a desenvolver novas formas de modular essa experiência. Técnicas como mindfulness, hipnose clínica, terapia cognitivo-comportamental e biofeedback têm mostrado bons resultados em pesquisas. Elas ajudam a reduzir o medo da dor, a trabalhar pensamentos catastróficos, a melhorar o manejo do estresse e a fortalecer circuitos neurais mais saudáveis. Em alguns casos, estudos apontam até mudanças em marcadores fisiológicos ligados à inflamação e ao estresse.

Quando o paciente entende como pensamentos, emoções e comportamentos influenciam o corpo, ele deixa de ser apenas um espectador da própria dor e passa a ser um participante ativo do tratamento. Isso reduz o medo do desconhecido, aumenta a adesão às orientações médicas e potencializa o efeito dos remédios e de outras terapias.

Nesse processo, o psicólogo clínico atua como um facilitador dessa reconexão entre mente e corpo, ajudando a pessoa a recuperar autonomia, qualidade de vida e, principalmente, dignidade diante da própria dor.

Porque, no fim das contas, a mensagem é essa: toda dor merece ser levada a sério. E quem sente dor merece ser acreditado.

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