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A semana passada trouxe à tona uma trend perturbadora no TikTok. Adolescentes publicaram vídeos com o título “treinando caso ela diga não“. Simulavam abordagens românticas (como pedidos de namoro ou casamento) e, diante da recusa, reagiam com socos, chutes e facadas. Era um ensaio para a violência, uma apologia explícita à agressão contra a mulher, disfarçada de conteúdo humorístico.
As postagens geraram investigação. Porque incitam crimes de gênero e ameaçam diretamente os direitos fundamentais das mulheres.
Mas enquanto isso acontecia, outro vídeo circulava. Dessa vez, de uma influenciadora digital. O título: “coisas que passam uma vibe gay, mesmo que ele não seja“. Numa fala que se apresenta como opinião, ela lista comportamentos que, segundo ela, tornam um homem “menos homem”. E mais: associa esses comportamentos à homossexualidade, como se isso fosse um problema, um defeito, algo a ser evitado.
Ela descreve o que considera um homem “de verdade”: viril, bruto, sem demonstração de emoções, sem cuidado com a moda, sem educação. Exatamente o oposto do que ela chama de “vibe gay“.
E é aqui que a gente precisa parar e pensar.
Porque quando falamos de feminicídio, estamos falando de homens que não desenvolveram sensibilidade, empatia, capacidade de lidar com a própria frustração. Homens que foram ensinados, desde pequenos, que sentir, cuidar, demonstrar afeto, são coisas de “maricas”. Homens que cresceram ouvindo que precisam ser duros, controladores, dominantes.
A influenciadora, ao reforçar esse estereótipo, está ajudando a formar exatamente o perfil de homem que, mais tarde, pode se tornar um agressor. Ela está dizendo, nas entrelinhas, o que é aceitável e o que não é. E quem foge do padrão, merece desprezo.
Esses dois vídeos, aparentemente tão diferentes, se encontram num ponto: os dois ensinam, de formas distintas, como o preconceito se alimenta. Um pela via escancarada da violência. Outro pela via sutil da opinião que desumaniza.
Uma amiga minha, ao comentar sobre a trend violenta, me fez uma pergunta. Ela disse: “Não entendo como esses meninos não percebem o absurdo. O que leva uma pessoa a pensar assim? Em que momento eles ‘viram a chave’?”
E eu respondi com esse exemplo da influenciadora. Porque a chave não vira de repente. Ela vai sendo moldada aos poucos, em microdoses diárias de preconceito.
Quando uma mulher com milhares de seguidores diz que determinado comportamento tem “vibe gay” (e ela diz isso como crítica) ela está criando uma categoria de desprestígio. Está dizendo: isso aqui é ruim, é motivo de piada, é digno de rejeição.
E quem consome esse conteúdo, sem reflexão, vai absorvendo. Vai aprendendo o que é “ser homem” e o que é “ser menos homem”. Vai aprendendo que homem de verdade não leva “|não” como resposta. Que homem de verdade não chora. Que homem de verdade controla.
Agora, volta na trend do TikTok. O que é “treinando caso ela diga não“, senão a consequência extrema de uma educação que nunca ensinou o homem a lidar com a rejeição?
Porque quando um menino cresce ouvindo que precisa ser dominante, que sua masculinidade está ameaçada se ele não controlar, que a mulher que diz não está apenas “se fazendo de difícil”, ele não aprende a lidar com o limite. Ele aprende que o “não” é um desafio. E quando desafiado, ele reage com violência.
As redes sociais potencializam isso. Porque vídeos polêmicos geram engajamento. Quanto mais violento, mais compartilhado. Quanto mais absurdo, mais comentado. E o cérebro, com o tempo, vai se acostumando. O que chocava ontem, hoje é normal.
E assim vão se formando grupos. Homens frustrados, inseguros, isolados, encontram na internet um lugar onde são acolhidos. Onde suas crenças são validadas. Onde ouvem que o problema não é eles, são as mulheres, que conquistaram espaço demais, autonomia demais, direitos demais.
Aí você soma imaturidade emocional, dificuldade de regular a raiva, crenças distorcidas sobre masculinidade, sentimento de posse… e pronto. Você tem um ambiente fértil para a violência.
Não podemos ignorar também o papel da cultura. Jogos que retratam mulheres como prêmios ou objetos sexuais. Músicas que humilham, objetificam, incitam. Sozinhos, não transformam ninguém em agressor. Mas num contexto onde já há misoginia, onde falta educação crítica, onde há validação social, eles funcionam como combustível.
A desigualdade de gênero se mantém porque é ensinada todos os dias, em pequenos gestos. Muitas vezes sem que a gente perceba.
Quem nunca viu, em casa, a filha arrumando a mesa enquanto o filho mexe no celular? Ninguém acha estranho. Mas é um treino silencioso de papéis.
Quem nunca ouviu elogios diferentes: a menina é bonita, o menino é inteligente? Isso ensina, desde cedo, que o valor da mulher está na aparência, e o do homem, no intelecto.
Meninas são mais protegidas; meninos, incentivados a se arriscar. Meninas precisam ser educadas e contidas; meninos podem ser expansivos e até agressivos.
No trabalho, a mesma postura: num homem, chama-se liderança; na mulher, arrogância.
Na sexualidade, o mesmo comportamento: para o homem, é conquista; para a mulher, é julgamento.
E na rejeição: o homem que insiste é persistente; a mulher que recusa é difícil, fria. E o “não” vira desafio, não limite.
Por isso existe a campanha “não é não“. Porque homens foram treinados para ignorar o limite. E muitos não sabem lidar com a frustração.
Entender tudo isso ajuda a responder a pergunta da minha amiga: o que leva uma pessoa a pensar assim?
Ela é levada por um sistema de hábitos reproduzidos por gerações. Automáticos. Que favorecem padrões históricos de desigualdade. E que vão sendo replicados a cada geração, muitas vezes sem intenção, mas nunca de forma neutra.
Então, o que fazer?
Na escola, é preciso educar para identificar e denunciar conteúdos misóginos.
Em casa, os pais precisam estar atentos. São modelos. O pai que trata a mãe com respeito está ensinando o filho a se relacionar. Dividir tarefas, não reproduzir piadas machistas, saber o que os filhos consomem na internet: tudo isso faz diferença.
E se você perceber sinais de alerta no comportamento do seu filho (piadas sobre mulheres, dificuldade de aceitar o “não”, crueldade com animais, isolamento, explosões de raiva desproporcionais) não ignore. Pode ser hora de buscar ajuda profissional.
A violência contra a mulher não nasce do nada. Ela é cultivada. Em cada piada, em cada “opinião”, em cada vídeo que viraliza. E a única forma de interromper esse ciclo é com consciência, educação e cuidado.
Porque o que está em jogo não é só uma trend. É a vida de mulheres. E o tipo de homem que a gente quer formar.


