|
Ouça agora
Getting your Trinity Audio player ready...
|
Outro dia eu estava olhando estatísticas sobre divórcios no Brasil e me deparei com dados que me fizeram pensar bastante sobre as grandes diferenças de números de separações dos anos 70 pra cá, não só referente as mudanças na legislação, mas principalmente nas mudanças emocionais e sócio-culturais, que é o que mais me interessa por ser psicólogo. Fiquei impressionado com os números. Mas ao mesmo tempo, por trás deles, existem grandes avanços sociais que tornam essa realidade um pouco mais fácil de entender e porque não, aceitar.
Em 1984, o Brasil registrou pouco mais de 30 mil divórcios anuais. Em 2023 já passávamos dos 440 mil, com uma pequena queda para 428 mil em 2024. Um crescimento de mais de 14 vezes em quatro décadas. E isso nos faz perguntar: por quê? Quais são as possíveis causas desse aumento tão expressivo?
O divórcio foi instituído no Brasil em 1977, e de lá para cá aconteceram grandes revoluções, tanto nas leis quanto na sociedade. As mulheres ganharam mais independência financeira (em boa parte graças ao maior acesso à educação e às universidades) e isso deu a elas mais condições de deixar relações insatisfatórias. Mas esse aumento dos divórcios não se explica só por isso. O acesso à informação cresceu para todo mundo, os estigmas em torno da separação foram perdendo força, e a sociedade como um todo passou a enxergar o divórcio com outros olhos. Ele deixou de ser visto como um fracasso e passou a ser reconhecido como uma opção legítima, não só na busca pela felicidade individual, mas também para quem quer construir outros projetos de vida com o mesmo peso que antes se dava apenas ao casamento.
Mudaças estruturais
O casamento deixou de ocupar sozinho o centro da realização pessoal. Hoje, amizades, família, trabalho, projetos pessoais e a própria autonomia também dão sentido à vida das pessoas, no mesmo nível do casamento em si. Imagine uma mulher de 45 anos que, depois de 20 anos casada, descobre que também encontra realização no trabalho, nas viagens com as amigas e no cuidado consigo mesma (coisas que antes ela nem considerava, porque achava que só o casamento deveria preencher esse espaço).
Já ouvi gente dizendo que “tanto divórcio, é sinal de que as pessoas estão deixando de acreditar no amor“. Eu teria muito cuidado com uma afirmação dessas. O que eu vejo, principalmente na clínica, é outra coisa: as pessoas estão questionando modelos antigos de amor e de casamento. Alguém pode continuar acreditando profundamente no amor e, justamente por isso, decidir não aceitar uma relação marcada por desrespeito, violência ou indiferença. Hoje, tanto homens quanto mulheres estão cada vez menos dispostos a acreditar que amar significa suportar qualquer coisa. Essa visão romântica, que durante muito tempo foi tida como certa e reforçada por grupos religiosos, ainda persiste em alguns lugares, mas as pessoas, por conta das mudanças sociais, estão cada vez mais questionadoras diante desses dogmas que, na prática, costumam trazer mais sofrimento do que aceitar que duas pessoas já não formam mais um casal há algum tempo.
Pense numa situação bem comum: uma pessoa que vive há anos numa relação cheia de humilhação e brigas constantes. Para ela, o divórcio pode ser uma porta de saída e, depois que acontece, não é raro ver uma melhora significativa na saúde emocional dos envolvidos. Sair daquela situação deplorável pode significar, de fato, um novo começo.
Divórcio como opção?
Agora, isso não quer dizer que o divórcio seja fácil. Pelo contrário: quando envolve conflito intenso, dificuldades financeiras, mudança de casa, disputa pela guarda dos filhos ou o fim abrupto de uma história muito longa, o estresse pode ser enorme. Mesmo assim, muitas pessoas relatam um certo alívio depois que a poeira baixa. É que, ao sair de uma relação conflituosa, a pessoa deixa de viver num campo de batalha diário e ganha espaço para reconstruir a vida.
Então, o divórcio por si só não é o vilão. O que determina se a pessoa vai sofrer ou vai se recuperar é o contexto da relação que está terminando, a maneira como a separação acontece e, principalmente, os recursos que ela tem para enfrentar tudo isso: seja apoio de amigos, estabilidade financeira, acompanhamento terapêutico ou simplesmente tempo para processar as mudanças.
Impactos emocionais
O impacto emocional de um divórcio também costuma ser diferente entre homens e mulheres. Vale um adendo: isso não é uma regra fixa, é mais uma questão cultural do que propriamente de gênero. Homens e mulheres experimentam tristeza, ansiedade, solidão, raiva, culpa e sensação de fracasso da mesma forma. A diferença está na maneira como essas emoções costumam ser expressas e nos recursos sociais que cada um tem à disposição. Uma mulher pode procurar as amigas para conversar sobre a separação, enquanto um homem, muitas vezes, tende a se fechar e tentar lidar sozinho com o sofrimento porque aprendeu, culturalmente, que demonstrar vulnerabilidade é sinal de fraqueza.
Essas emoções aparecem de formas bem diferentes de pessoa para pessoa. A tristeza pode vir através do choro ou do isolamento. A ansiedade pode aparecer como preocupação ou como irritabilidade. A solidão pode levar alguém a buscar contato em excesso, ou justamente ao contrário, a se retrair. E a raiva pode se expressar através de conflito ou de agressividade.
Também existem tendências estatísticas entre os gêneros em outras áreas. No aspecto financeiro, as mulheres, especialmente as que têm filhos, costumam ter uma queda maior de renda, enquanto os homens geralmente mantêm ou até melhoram a própria renda. Na rede de apoio, as mulheres tendem a buscar mais as amigas, a terapia e a família, enquanto os homens tendem mais ao isolamento. No aspecto emocional, as mulheres costumam sofrer de forma aguda e intensa logo no início, mas normalmente elaboram melhor esse processo, enquanto os homens muitas vezes sofrem mais tarde, e esse sofrimento aparece disfarçado, seja em idas a bares, em novos relacionamentos, seja em excesso de trabalho. E, quando falamos da guarda dos filhos, as mulheres costumam ter uma sobrecarga prática maior no dia a dia, enquanto os homens, quando a guarda não é compartilhada, costumam apresentar mais distanciamento emocional. Vale reforçar: são tendências observadas em grandes estudos e pesquisas, não regras que valem para todo mundo.
Eu mesmo já vi isso entre amigos. As mulheres que se divorciam costumam ir para a terapia, chorar, e aos poucos reorganizar a vida. Já os ex-maridos, muitas vezes, vão para o bar com os amigos, dizem que estão bem e três anos depois entram em depressão quando a ex-mulher assume um novo relacionamento. E aqui cabe um lembrete importante: quando falamos de seres humanos, é preciso ter muito cuidado ao estabelecer causas e efeitos fixos, porque as pessoas sempre acabam escapando de qualquer teoria que tentamos aplicar a elas.
Porque os casamentos acabam?
Se pensarmos agora nos motivos que levam as pessoas a se divorciarem, encontramos uma variedade grande: desde problemas de comunicação, passando por dificuldades financeiras, até situações extremas de violência. E, na maioria das vezes, esses motivos vão se acumulando ao longo do tempo. É raro o divórcio acontecer de uma hora para outra, ele se constrói aos poucos, em meses, anos, às vezes décadas, enquanto pequenas situações vão ficando sem solução e o relacionamento vai se desgastando devagar.
Um exemplo muito comum é o casal que “deixou de ser casal“. Eles continuam dividindo contas, tarefas e rotina, mas já não conversam mais sobre sonhos, medos, sentimentos ou experiências pessoais. Não há mais interesse pelo mundo do outro, não existe mais intimidade, e no lugar disso fica a indiferença: cumprem as obrigações do dia a dia numa convivência puramente funcional. É o que muita gente resume dizendo: “viramos apenas colegas de casa“. Pense num casal desgastado que mora junto há 15 anos: eles sabem qual remédio o outro toma, qual horário cada um chega em casa, mas já não sabem mais o que o outro sonha, do que tem medo, o que aconteceu de bom ou de ruim no dia dele. Dividem o sofá, mas não dividem mais a vida.
Tem também aquele casal em que um dos parceiros sente falta de carinho, mas em vez de dizer “estou sentindo sua falta“, começa a dizer “você nunca se importa comigo“. Aos poucos, passam a viver entre acusações, críticas, silêncios e ironias, sempre na defensiva. É como aquele vizinho que, em vez de pedir para você abaixar o som da música, já chega gritando que você não tem educação (a mensagem original se perde no meio do ataque). Esse é um exemplo clássico de problema de comunicação.
Existe também o casal que se separa por causa de uma traição. A infidelidade aparece com frequência como motivo do divórcio, mas raramente vem sozinha. Em geral, ela surge junto com o distanciamento do casal, com uma insatisfação, com a busca de validação fora da relação, ou com dificuldades na intimidade entre os dois. Uma pessoa pode se sentir invisível dentro do casamento e ir buscar, fora dele, a sensação de ser desejada de novo, algo que já não vê mais no parceiro. Vale destacar: os problemas do casamento ajudam a entender os fatores que estavam envolvidos, mas nunca justificam a traição em si.
Outro motivo comum é a falta de investimento na relação. Todo casamento precisa de manutenção constante, e alguns casais chegam ao divórcio justamente porque um dos dois (ou os dois) deixa de cuidar do vínculo. Imagine um casal que passa anos priorizando trabalho, filhos, contas e compromissos externos, sempre deixando a relação “para depois“. O amor pode até continuar existindo, mas sem cuidado ele enfraquece, porque são as atitudes do dia a dia que sustentam um relacionamento. É como um carro: pode ser o melhor veículo do mundo, mas se ninguém troca o óleo, calibra os pneus ou faz a revisão, ele acaba parando de funcionar. O casamento funciona da mesma forma.
Há ainda os casais marcados por conflitos constantes, que não conseguem reparar as próprias brigas. Um exemplo típico: toda discussão sobre dinheiro vira uma discussão sobre respeito, caráter e família, e o casal nunca consegue voltar ao assunto original de forma construtiva. Aqui vale uma ressalva importante: divergências existem em qualquer relação, e o que realmente pesa é a forma como lidamos com essa discordância e como resolvemos, ou deixamos de resolver, as questões que ela levanta.
Muitas vezes o divórcio também vem de diferenças na relação com o dinheiro. Um parceiro pode gostar de gastar como forma de aproveitar a vida, enquanto o outro entende economizar como uma forma de proteção. É como se um quisesse construir um castelo de areia e o outro quisesse guardar cada grão de areia num cofre, duas crenças completamente diferentes sobre o que o dinheiro representa, e isso gera atrito constante.
Quando o medo entra em cena
E chegamos a uma causa de divórcio que, infelizmente, só aumenta: a falta de respeito, as agressões e a violência. Quando uma pessoa deixa de expressar suas opiniões porque teme a reação do parceiro, já temos um problema sério. Quando alguém passa a pensar, a todo momento, em proteger a própria integridade física e emocional dentro da relação, isso deixa de ser um problema de casal e passa a ser criminoso. Violência física, violência psicológica, humilhação, controle e ameaças são motivos graves o suficiente para que esse casamento não continue. Pense naquela mulher que precisa pedir permissão para visitar a própria mãe, ou naquele homem que leva um tapa durante uma briga e ouve que “a próxima vez vai ser pior“. Pense na pessoa que é obrigada a mostrar o celular a cada instante, que não pode ter uma conta no próprio nome, ou que é ameaçada de nunca mais ver os filhos caso decida terminar. Quando o medo entra em casa, a casa deixou de ser um lar.
Então, o que fica de tudo isso é que o divórcio, na maioria das vezes, é resultado de pequenos afastamentos que se acumulam ao longo do tempo. E que o casamento (ou a união estável, como preferir chamar) precisa ser um lugar onde duas pessoas continuem se escolhendo, conversando, reparando os próprios erros e construindo algo em comum. Por isso, vamos cuidar daquilo que faz o amor existir: conversar, demonstrar afeto, mostrar os próprios sentimentos, e manter a cumplicidade e o companheirismo, principalmente nos momentos difíceis.

