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Violência Sexual: as facetas de um crime

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Ultimamente, não dá para ligar a televisão ou abrir um jornal sem ver uma notícia que nos tira o chão. Jovens e adolescentes envolvidos em crimes de estupro de vulnerável. Casos que parecem saídos de um pesadelo, mas que infelizmente são a nossa realidade.

Em janeiro deste ano, um adolescente de 17 anos convidou a ex-namorada, também de 17, para um apartamento em Copacabana. Mas não era um encontro. Era uma emboscada. Ele coordenou a chegada de quatro amigos que estupraram a jovem em grupo.

Em fevereiro, na zona norte de São Paulo, um estudante de 12 anos foi estuprado no banheiro da escola por quatro colegas, de 12 a 15 anos. A mãe percebeu mudanças no comportamento do filho, procurou a escola e registrou boletim de ocorrência.

Em abril, numa comunidade da zona leste de São Paulo, um adulto de 21 anos e quatro adolescentes estupraram duas crianças de 7 e 10 anos. Os agressores eram vizinhos. Atraíram as crianças com o pretexto de “soltar pipa”. Gravaram os abusos e compartilharam nas redes sociais.

Esses três casos são aterrorizantes. Mas o que é mais assustador ainda é que eles não são exceção. São parte de uma epidemia silenciosa que atinge o Brasil inteiro.

A “zoeira” que é crime

No caso das crianças que foram atraídas para “soltar pipa”, o que mais chamou atenção, além do crime em si, foi o agressor dizendo que o que faziam era por “diversão“, “zueira“. Psicologicamente, isso tem um nome: distorção cognitiva. É quando a pessoa distorce a realidade para não encarar a monstruosidade do que fez. Frases como “não foi nada demais“, “só brinquei“, “ela não sofreu“, tudo isso revela uma falta profunda de empatia. O agressor não consegue se colocar no lugar da vítima. A dor dela simplesmente não existe para ele.Isso também tem muito a ver com o machismo que ainda permeia a nossa sociedade. A cultura que objetifica mulheres e crianças, que banaliza a violência sexual. Em alguns casos, os próprios agressores foram abusados na infância e repetem o padrão, normalizando o comportamento como parte de “ser homem” ou mesmo de uma “brincadeira” (de muito mau gosto diga-se de passagem).

Mas deixemos uma coisa muito clara: o fato de alguém ter sido abusado na infância NÃO o torna automaticamente um agressor no futuro. A grande maioria das vítimas nunca comete violência. O que determina se alguém vai repetir o ciclo é uma combinação complexa de fatores: biológicos, psicológicos e ambientais.

A escalada da violência

No mesmo caso acima, outro detalhe chocante: as filmagens foram compartilhadas nas redes sociais. Divulgar, compartilhar vídeos, fotos ou relatos de abuso é uma escalada da violência, além de crime também. É adicionar humilhação pública ao trauma da vítima. É uma continuação do abuso que agora se torna público e infla ainda mais o sofrimento da criança, da família e da comunidade. Não há justificativa para isso. Diz muito sobre a estrutura psíquica do agressor e o quanto ele é cruel.

Por que eles compartilham? Para alguns, é uma forma de ganhar status no grupo, como se divulgar o abuso fosse um troféu, uma forma de prestígio entre pares igualmente doentes. Para outros, é uma ferramenta de silenciamento: “se você contar, eu mostro as fotos para todo mundo“. Para muitos, a excitação não está apenas no ato, mas em expor, degradar e humilhar publicamente. E há ainda aqueles que acreditam que a internet é terra de ninguém, que não vai dar em nada, que o celular e seus aplicativos são zonas de impunidade e neutralidade. Isso reforça a urgência de que crimes cometidos na internet ou redes sociais sejam punidos com a mesma severidade ou até maior, do que os cometidos na vida real.

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Perfil do agressor

Você pode estar se perguntando: qual é o perfil desse agressor? Dá para ver os sinais desde a infância? A ciência responde: não existe um perfil único. Mas existem sinais de alerta que, quando presentes de forma persistente e combinada, aumentam o risco de comportamento violento no futuro.

O sinal mais conhecido é a crueldade com animais. Torturar ou matar animais é um dos preditores mais fortes de violência futura, seguido de fascínio por incêndios e enurese noturna persistente após os 5 anos. Cada um desses comportamentos isoladamente (especialmente a crueldade com animais) pode sim prever comportamento violento futuro. Mas é muito raro encontrar os três juntos. O que esses sinais indicam, na verdade, é um ambiente familiar disfuncional, negligência ou abuso na infância (fatores que, por sua vez, aumentam o risco de violência). Outros sinais importantes:

  • Bullying repetido e sistemático, humilhando colegas mais fracos;
  • Manipulação constante dos outros;
  • Falta de empatia (não sentir remorso ao machucar alguém);
  • Consumo precoce e intenso de pornografia violenta;
  • Mentiras patológicas;
  • Isolamento social e dificuldade de se relacionar com pares.

Mas lembre-se: esses sinais não determinam que uma criança se tornará agressora. Muitas crianças com alguns desses comportamentos não cometem crimes no futuro. O que importa é a persistência, a intensidade e a combinação com outros fatores de risco.

O caso de Copacabana, em janeiro de 2026, revela que esse padrão de violência não foi um ato isolado. As investigações conduzidas pelo delegado descobriram que o adolescente de 17 anos apontado como mentor intelectual do crime já havia estuprado outra menina de 14 anos em 2023, com o mesmo método: ele usava a confiança de um relacionamento anterior para atrair a vítima a um apartamento, onde outros agressores a aguardavam para cometer a violência em grupo. Uma terceira vítima também denunciou ter sido abusada por ele, um dos adultos presos, durante uma festa do colégio. O histórico escolar dos envolvidos já registrava inúmeras suspensões, advertências, afastamentos e até troca de turno (um padrão de comportamento anti-social que a escola, segundo depoimento de uma vítima, já conhecia). No dia em que se entregou à polícia, o agressor usava uma camisa com a frase “Regret Nothing” (“Não se arrependa de nada”), associada ao influenciador misógino Andrew Tate e à cultura Red Pill, revelando abertamente a ideologia que alimenta sua falta de empatia.

Sinais, quando repetidos e ignorados pelo entorno (pela família, pela escola, pelos amigos e instituições) podem se consolidar num padrão de violência que escala. O caso de Copacabana é uma evidência de como a combinação de fatores individuais, contexto social permissivo e ausência de limites pode produzir agressores cada vez mais jovens.

Predisposição genética ou ambiente?

A pergunta que todo mundo faz: isso é genético ou a pessoa aprende? A resposta científica é: ambos. E a interação entre eles. Estudos mostram que alguns indivíduos nascem com predisposição biológica para baixa empatia ou traços de personalidade antissocial. Mas aqui está o ponto crucial: ter a predisposição genética NÃO é destino. O ambiente é determinante.

Pesquisas mostram que indivíduos predispostos biologicamente que também sofreram abuso ou negligência na infância têm probabilidade muito maior de desenvolver comportamento antissocial na vida adulta. Mas aqueles com a mesma predisposição genética que cresceram em ambientes acolhedores, com limites claros e afeto, não se tornam agressores.

Pense em dois meninos. Ambos têm predisposição genética para baixa empatia. Um cresce numa família que conversa, que ensina respeito, que põe limites com amor. Ele pode ter dificuldades emocionais na vida adulta, mas não se torna agressor. O outro cresce num ambiente machista, assiste a pornografia violenta desde cedo, é abusado por um familiar e nunca é punido quando humilha os colegas. Ele tem muito mais chances de se tornar agressor.

A predisposição não é sentença. É como ter uma faca na gaveta: pode ser usada para cortar pão ou para ferir alguém. O que decide é o ambiente, a educação, os exemplos que a criança recebe.

E mais: ter sido vítima de abuso na infância é um fator de risco importante, mas a grande maioria das vítimas NÃO se torna agressora. Não se nasce agressor sexual inevitavelmente. Mas a combinação de vulnerabilidade biológica com um ambiente que normaliza violência, reforça machismo e não pune pequenas agressões, esse sim é um terreno fértil.

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Do lado da vítima: como os pais devem agir?

Agora, deixando um pouco o agressor de lado, vamos falar da vítima. E dos pais. Como uma mãe ou um pai deve se comportar quando descobre que o filho sofreu violência sexual? No início do texto, falamos da mãe do adolescente de 12 anos que, ao perceber comportamentos incomuns no filho, tomou atitude: foi falar com a escola e registrou boletim de ocorrência. Para que essa mãe tomasse tal atitude, ela precisou ter sido observadora. E é exatamente esse comportamento que esperamos de todo pai ou responsável: estar atento a qualquer mudança no comportamento do filho. Porque situações como essa nem sempre são ditas com palavras claras e diretas. Elas envolvem vergonha, medo, confusão (sentimentos que uma criança ou adolescente muitas vezes não consegue nomear). Por isso, o sofrimento sai do jeito que dá: por meio de comportamentos “estranhos”, regressões, isolamento, agressividade ou tristeza sem explicação. O olhar atento do adulto é, muitas vezes, a primeira ponte entre o silêncio da vítima e a possibilidade de ajuda. E esse olhar diz à criança: “Eu percebo que algo não vai bem. Você não está sozinho. Eu estou aqui para te proteger, mesmo que você ainda não saiba me dizer o que aconteceu.“

Imagine esta cena. Uma mãe percebe que a filha de 6 anos está com comportamento sexualizado (fazendo gestos, falando palavras que não deveria conhecer). Ela questiona delicadamente. A filha chora e revela que o avô a tocou. A mãe a abraça, diz “eu acredito em você“, não insiste em detalhes, e imediatamente leva a filha ao hospital e ao Conselho Tutelar. Ela não confronta o pai sozinha. Ela busca psicoterapia para si mesma, para não desabar na frente da criança. Esse exemplo mostra exatamente o que fazer.

Primeiro: acredite incondicionalmente na sua criança. Crianças raramente inventam abuso sexual. A frase “eu acredito em você” é a mais poderosa coisa que você pode dizer.

Segundo: mantenha a calma na frente da criança. Se os pais desmoronam, a criança pode se sentir culpada, “fui eu que deixei papai/mamãe triste”. Você pode chorar, pode sofrer, mas faça isso depois, sozinho ou com um psicólogo.

Terceiro: não interrogue a criança. Não pergunte detalhes repetidamente. Deixe isso para os profissionais (psicólogos, delegados especializados, conselheiros tutelares). Cada vez que a criança é obrigada a contar a história, ela revive o trauma.

Quarto: proteja a criança do agressor imediatamente. O agressor pode ser alguém conhecido, alguém da família, alguém dentro de casa. Ele não pode ter mais acesso à criança. Jamais force o contato. Jamais force um perdão para “manter a família unida“. Se algo assim aconteceu, não há união nessa família. Encarar isso é mais saudável do que forçar uma situação que só revitimiza a criança.

Quinto: busque atendimento imediato. Hospital para exame físico, profilaxia para ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), contracepção de emergência se necessário. Conselho tutelar. Delegacia especializada. Apoio psicológico (tanto para a criança quanto para os pais).

Entenda que a criança pode sentir raiva, medo, confusão. Isso é natural. E se esses sentimentos também invadirem você, é perfeitamente normal. Por isso é tão importante que os pais também procurem ajuda profissional.

Sinais de alerta na criança

Pais, fiquem atentos. Imagine uma criança que sempre foi extrovertida, adorava ir para a escola, brincar com os amigos. De repente, ela começa a chorar todas as manhãs, dizendo que não quer ir. Volta a fazer xixi na cama depois de já ter aprendido. Você a encontra brincando de médico com um boneco de forma que imita atos sexuais. Ela começa a ter pesadelos e acorda gritando. Essas mudanças súbitas e múltiplas são como um alarme que o corpo e a mente da criança disparam. É como se o cérebro dela estivesse tentando falar através de comportamentos, já que ela ainda não consegue nomear claramente o que aconteceu.

Não há um sinal único e universal. Cada criança reage de forma diferente. Algumas podem não apresentar sinais aparentes.

  • Sinais físicos: dores ou lesões na região genital, dor ao urinar ou evacuar, dificuldade para andar ou sentar, infecções sexualmente transmissíveis, gravidez precoce, sangramentos inexplicáveis.
  • Sinais emocionais: medo repentino de uma pessoa específica, terror noturno, insônia, pesadelos, tristeza profunda, ansiedade. A criança pode começar a dizer que fez algo ruim, sem especificar o quê, como se carregasse um segredo ou uma culpa.
  • Sinais comportamentais (os mais comuns): regressão, como voltar a molhar a cama, chupar o dedo, falar como bebê, ter medo do escuro. Adolescentes podem ter ideação suicida, automutilação, vontade de fugir de casa. A criança pode recusar trocar de roupa na frente dos outros, escondendo o corpo ou o oposto, uma exposição exagerada. Pode ter comportamento sexualizado inapropriado para a idade: masturbação excessiva e pública, desenho de órgãos genitais, linguagem sexual explícita, tentativa de simular ato sexual com bonecas ou outras crianças.

Mudanças na forma de se vestir também podem ser sinais. Crianças mais velhas que começam a usar roupas que escondem o corpo, mangas compridas em pleno calor, por exemplo, podem estar encobrindo marcas de automutilação.

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Os efeitos do trauma

O abuso sexual na infância deixa marcas profundas e duradouras. Não é algo que a criança “esquece” quando cresce. Estudos mostram que as sequelas incluem consequências físicas (trauma, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada na adolescência) e consequências emocionais profundas: medo, depressão, ansiedade, sentimento de culpa, transtorno de estresse pós-traumático. Crianças abusadas sexualmente têm risco aumentado em 20% para desenvolver transtorno de estresse pós-traumático, 21% para depressão e suicídio, 14% para comportamento sexual promíscuo, 8% para manter o ciclo de violência e 10% para déficits no rendimento escolar.

Altas taxas de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e transtorno de personalidade borderline são encontradas em mulheres que sofreram abuso sexual na infância. Essas sequelas podem persistir ao longo de toda a vida.

Mas, e isso é importante, a prevenção, a identificação precoce e o acolhimento adequado podem reduzir drasticamente o dano e interromper o ciclo. A resiliência humana existe. Com tratamento, com apoio, com amor, é possível reescrever a história.

Finalizando

A violência sexual contra crianças e adolescentes é uma das maiores violações de direitos humanos que existem. Seus efeitos são profundos, duradouros e atingem não só a vítima, mas toda a família e a comunidade.

Mas a prevenção, a identificação precoce e o acolhimento adequado podem reduzir o dano e interromper o ciclo. Educadores, famílias e sociedade têm papéis importantíssimos. O combate a esse crime começa com uma atitude simples: acreditar na vítima, denunciar e nunca se calar.

Se você suspeita, não ignore. Se você sabe, denuncie. Procure o conselho tutelar. Vá a uma delegacia. A sua atitude pode salvar uma criança de anos de sofrimento.

E se você é pai ou mãe, fique atento às mudanças de comportamento. Confie no seu instinto. Se algo parecer errado, provavelmente está. Melhor errar pela cautela do que pelo silêncio.

As crianças não pedem para ser protegidas. Elas apenas mostram, do jeito que conseguem, que algo vai mal. Cabe a nós, adultos, saber olhar, saber ouvir e saber agir.

Acredite. Denuncie. Não cale.

Telefones úteis:

  • Disque 100 — Denúncias de violência contra crianças e adolescentes
  • CVV (Centro de Valorização da Vida) — 188 — Apoio emocional 24h
  • Conselho Tutelar — 136 (ligação gratuita para localizar o mais próximo)
  • Polícia Civil — 197
  • SAMU — 192

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