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Viver ou Sobreviver: Florescimento Humano

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Vocês já pararam pra pensar que o nosso dia a dia é feito de tarefas e hábitos que muitas vezes nem percebemos? O quanto vivemos no automático. Meio alienados, sem pensar sobre a vida, sem contato e sem conexão com as pessoas ao redor.

Eu trabalho na Av. Paulista e tenho a oportunidade de andar por lá e perceber cada pessoa que anda pelas calçadas, entra e sai dos prédios, entra e sai dos shoppings… Sem pensar muito e apressados. Como robozinhos, apenas executando passos de lá pra cá, de cá pra lá. Sem nem estar conscientes do que fazem e como fazem muitas vezes. Olhando pro celular, mal olhando na cara um do outro transeunte.

Na sua cidade também deve ter algum lugar assim. Seja como for, esse fenômeno, hoje tão global, de andar com pressa, olhando pro celular, sem olhar nos olhos de ninguém, de cabeça baixa, só revela o quanto estamos desconectados da vida. Sem pensar exatamente no que estamos fazendo.

De vez em quando eu me pego olhando pela janela do consultório. E também faço com que meus pacientes olhem por essa janela. Perceber o mundo lá fora, o movimento, mas também perceber o ambiente dentro do consultório. Tudo isso acontece ao mesmo tempo. E a intenção e a atenção que você coloca é o que modifica tudo.

Então eu te pergunto: como você se relaciona com o seu dia a dia? Você se envolve, não de forma frenética, mas de uma forma a perceber, a se questionar, a estar mais consciente do que está fazendo?

Como estão as suas relações? Aquelas mais significativas, como as familiares, ou as menos significativas, como as do trabalho? Você acha que está usando suas capacidades físicas e mentais de maneira satisfatória e saudável? As coisas que você faz na vida, que você escolhe fazer, os projetos que você tem, tudo isso te dá um sentido?

Essas perguntas são muito importantes quando a gente conhece um conceito da Psicologia Positiva, que até pouco tempo era desconhecido pra mim: o florescimento humano.

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Pra quem não sabe, a Psicologia Positiva é um campo da Psicologia que, em vez de focar apenas em doenças e disfunções, estuda os fatores que permitem que indivíduos e comunidades prosperem. Ela não ignora o sofrimento, mas busca entender o que torna a vida digna de ser vivida.

O conceito de florescimento humano foi criado pelo psicólogo Martin Seligman. É o estado de funcionamento psicológico ótimo, caracterizado por experimentar níveis suficientes, não necessariamente máximos ou simultâneos, dos cinco pilares do bem-estar (Emoçoes Positivas; Engajamento; Relacionamentos; Sentido; Realização – P.E.R.M.A.), com o objetivo de viver uma vida com sentido, conexão e realização, mesmo em meio às adversidades inevitáveis da existência. Mas atenção: não é um estado passivo que acontece com você por acaso, como florescer ao sol. É um processo ativo, intencional. Há uma atitude, uma ação voluntária, um cultivo diário.

A ideia é que tenhamos uma ação voluntária pra cultivar esse estado de florescimento. Assim como um jardineiro não simplesmente “torce” pra que as flores nasçam, mas prepara a terra, rega, poda, protege do sol excessivo e das pragas, o florescimento humano exige práticas deliberadas.

Frases como “espero ficar feliz um dia“, “se as coisas melhorarem, aí eu vou viver bem“, “não tenho controle sobre a minha vida“, essas frases não facilitam o florescimento. Diferentemente de perguntas como: “o que posso fazer hoje, mesmo que pequeno, pra me sentir mais engajado, conectado ou com propósito?” Ou: “vou praticar gratidão agora“, “vou buscar um sentido mesmo nessa situação difícil.”

Vamos ver um exemplo. Duas pessoas perdem o emprego. A primeira, mais passiva, se sente vítima. Espera uma oportunidade cair do céu. Passa os dias rolando a tela do celular. E o sofrimento se aprofunda. A segunda também sofre, mas decide voluntariamente: atualizar seu currículo, almoçar com um amigo pra conversar, contatar pessoas que possam ajudar na sua recolocação, se inscrever naquele curso que sempre quis. Ela não nega a dor. Mas age apesar dela.

Viver bem não é fácil, é intencional. Exige escolher, muitas vezes, o caminho mais longo, o mais difícil, o que pode gerar desconforto no curto prazo pra ganhos no longo prazo.

Sejamos justos. Existe um ponto crucial aqui. Dizer que o florescimento exige ação voluntária não pode virar uma ferramenta de culpa ou julgamento. Pessoas com depressão grave, ansiedade paralisante, traumas não elaborados, condições sociais adversas (pobreza, violência, discriminação) têm sua capacidade de ação voluntária drasticamente reduzida.

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Pra essas pessoas, o primeiro passo não é florescer. É buscar tratamento, acolhimento, segurança básica. A ação voluntária pode ser “levantar da cama e escovar os dentes” ou “ir à primeira consulta com o psicólogo“. Dizer pra uma pessoa com depressão profunda “você só precisa praticar gratidão e se engajar” é cruel e ineficaz. Primeiro, trata essa depressão, com terapia, medicamentos, apoio. Depois, quando a pessoa conseguir se recuperar minimamente, aí as ações voluntárias pro florescimento se tornam possíveis.

Feitas essas ressalvas, dá pra entender que o florescimento é como um músculo que se fortalece com a prática. Ele não aparece do nada. Cada pequena ação voluntária (uma respiração consciente, uma mensagem de afeto, cinco minutos de algo que te engaja) é como uma repetição no exercício. Com o tempo, o músculo do florescimento fica mais forte. E as ações que antes exigiam enorme esforço se tornam mais naturais.

Quando uma pessoa entende que pode, mesmo que em pequenas doses, escolher ações que nutrem seu bem-estar (mesmo em meio à dor, à dificuldade, à rotina pesada) ela deixa de ser vítima passiva das circunstâncias e se torna jardineira da própria vida. Não se trata de positividade tóxica, de fingir que está tudo bem. Trata-se de, reconhecendo a dor e os limites, escolher voluntariamente uma ou duas ações que, no longo prazo, construam um solo mais fértil. Pra que a vida (com suas tempestades e estiagens) ainda assim possa florescer.

Pra entender melhor o florescimento humano, é legal conhecer os 5 (cinco) Pilares que Martin Seligman listou. São eles:

1) Emoções Positivas (P): Cultivar alegria, gratidão, esperança, amor.

2) Engajamento ou Fluxo (E): Estar tão imerso numa atividade que você perde a noção do tempo.

3) Relacionamentos (R): Criar e manter conexões genuínas, amorosas e significativas.

4) Sentido (M – Meaning): Acreditar que a vida tem um significado e que você contribui pra algo maior.

5) Realização (A – Accomplishment): Sentir-se capaz, progredir e conquistar metas, não só sucesso material, mas domínio pessoal.

Agora, não se engane. Você não precisa realizar todos os cinco pilares o tempo todo pra estar em florescimento. Eles não são uma lista de verificação onde você tem que gabaritar 5/5 pra ser aprovado. São um mapa de possibilidades, dimensões da vida que, quando nutridas juntas em graus variados, constroem um bem-estar mais completo e sustentável.

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Você pode florescer mais em alguns pilares e trabalhar outros aos poucos. Pode florescer num momento da vida e sobreviver em outro. Pode ir florescendo em pequenas doses diárias. Florescer é um processo vivo, dinâmico e imperfeito. É ter algumas áreas da sua vida nutridas o suficiente pra que, mesmo nos dias difíceis, você veja sentido, conexão, uma faísca de engajamento, uma emoção boa ou uma pequena realização.

Uma mãe de um recém-nascido pode estar com baixo engajamento (sem tempo pra hobbies ou fluxo criativo) e baixa realização profissional no momento. Mas se cultiva emoções positivas (amor pelo bebê), relacionamentos profundos (conexão com o filho) e sentido (cuidar de uma nova vida), ela já tem uma base forte de florescimento em dimensões essenciais. Aos poucos, ela pode nutrir os outros pilares quando a rotina permitir.

O que aos 20 anos parece florescimento (muita realização no trabalho, emoções intensas) pode ser diferente aos 70 (mais foco em relacionamentos familiares e sentido). E está tudo bem. O poder dos cinco pilares é mostrar múltiplos caminhos pro bem-estar. Se um está baixo, nutra os mais fáceis e acessíveis pra você enquanto constrói os outros, passo a passo.

Pergunte: “Em qual desses pilares eu estou bem hoje?” e celebre isso. “Qual deles precisa de um pouco mais de cuidado esta semana?” e escolha uma ação pequena, como mandar uma mensagem carinhosa pra alguém ou caminhar sem celular por dez minutos.

Florescer depende de uma base mínima de saúde mental e de necessidades básicas atendidas. Não é possível florescer no deserto absoluto. Antes de florescer, é preciso sobreviver e ter o mínimo pra sustentar a vida psíquica. Se eu não tiver comida, água, abrigo, segurança contra violência imediata; se eu não tiver um trabalho minimamente estável, moradia digna, ausência de violência doméstica ou comunitária; se a minha rede de apoio é deficitária ou meus relacionamentos não são minimamente seguros, dificilmente eu consigo florescer.

Uma mulher em situação de rua, passando fome e sofrendo violência, não está florescendo. E isso não é uma falha dela. É um problema social. Pedir que ela pratique gratidão ou busque engajamento é cruel e desconectado da realidade. Ter necessidades básicas atendidas não é privilégio. É direito humano. E sem elas, o florescimento é, na melhor das hipóteses, extremamente difícil; na pior, impossível.

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Um trabalhador que faz jornada dupla, dorme quatro horas por noite, pega três horas de transporte público e não tem um dia de descanso, não está florescendo. Ele está sobrevivendo. E isso não é uma falha de caráter. É uma falha social. O florescimento, pra ele, exigiria primeiro uma mudança nas suas condições de vida.

Mas acima de tudo, o que é animador é que a gente não precisa ter todas as necessidades 100% atendidas pra começar a florescer. Você pode estar num momento difícil e ainda encontrar pequenas faíscas de sentido, de conexão, de uma emoção positiva. Você também pode ter um transtorno mental em tratamento e, mesmo com sintomas residuais, praticar pequenas ações de florescimento.

Por tudo isso, a gente entende que a responsabilidade do florescimento é compartilhada. Compartilhada pelo indivíduo e pela sociedade. Como indivíduo, posso ver, dentro das minhas condições, o que posso fazer. Mas também tem a responsabilidade social: a sociedade tem o dever de garantir que todas as pessoas tenham condições mínimas pra sequer cogitar florescer. Sem políticas públicas de saúde, moradia, segurança, trabalho digno, o discurso do florescimento se torna discurso de privilégio.

E é com essa ideia que a gente termina: florescer não é uma obrigação. Não é mais uma coisa na sua lista de tarefas. Não é um padrão a ser alcançado. Florescer é, antes de tudo, um movimento de cuidado. Consigo e com o outro.

Se você olhou pra sua vida agora e sentiu que está só sobrevivendo, sem conexão, sem sentido, sem energia, não se cobre por não estar florescendo. Talvez o que você precise não seja de mais um conceito psicológico na sua vida. Talvez você precise de acolhimento. De um lugar onde possa dizer o quanto está difícil. De ajuda profissional.

Florescer é, mesmo com falhas e com dores, continuar se movimentando na direção da vida. E esse movimento, muitas vezes, começa com uma única frase dita a alguém: “estou precisando de ajuda.” Isso já é uma ação voluntária. Isso já é um primeiro passo. E já é florescimento em seu estado mais verdadeiro: o de alguém que, mesmo no chão, escolhe se levantar. Nem que seja devagar. Nem que seja no seu ritmo.

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