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Você já percebeu como o medo está presente em quase tudo o que a gente faz?
No texto anterior, falei sobre uma de suas faces: o encolhimento da existência e sobre o quanto ele limita a vida quando nos rendemos a ele. Hoje, quero convidar você a olhar mais de perto para os medos que nos acompanham no dia a dia e pensar em como podemos lidar melhor com eles, porque muitas vezes nem percebemos o quanto nos controlam.
Vivemos tempos de insegurança. Há o medo do fracasso, da rejeição, da solidão. O medo de não ter dinheiro no fim do mês… ou de não ser bom o suficiente. Há quem evite sair à noite por medo da violência, e quem se angustie com as mudanças do clima e o futuro do planeta.
Pensa comigo: Quem nunca ficou com as mãos suando antes de apresentar um trabalho, com medo de travar e ver alguém rindo na plateia? Ou abriu o aplicativo do banco e sentiu aquele frio na barriga ao ver o saldo negativo? Ou, mesmo se esforçando ao máximo, pensou: “uma hora vão perceber que eu não sou tão bom quanto pareço”. Há também os medos mais concretos: como o de andar sozinho à noite, olhando para os lados e acelerando o passo; e os mais existenciais, como o de olhar o noticiário e se perguntar: “Que mundo será que meus filhos vão herdar?”.
Todos esses medos têm algo em comum: refletem o tempo instável em que vivemos com comparações constantes, principalmente nas redes sociais e uma pressão enorme por desempenho.
Esses medos, grandes ou pequenos, fazem parte da nossa rotina. E quer saber? É impossível viver sem medo.
O medo é essencial à sobrevivência. É ele que faz a gente olhar pros dois lados antes de atravessar a rua, usar o cinto de segurança, fazer um seguro de saúde ou estudar mais para não ser pego de surpresa numa prova. Quando bem direcionado, o medo ensina, protege e motiva a crescer.
O problema começa quando ele deixa de ser um sinal de alerta e paralisa, distorce ou exagera a realidade. Mas o medo também pode ser um grande impulsionador; tudo depende de como a gente o encara.
O medo da violência nos faz buscar segurança. O medo de não sermos bons o bastante pode nos levar a estudar e melhorar. O medo das mudanças climáticas motiva ações mais conscientes. E até o medo da solidão pode nos lembrar da importância dos vínculos. Ou seja: o medo tem seu papel. O segredo está em aprender a tirar o melhor proveito dele.
Na faculdade, lembro que uma professora dizia que o corpo tem três reações fisiológicas ao medo: lutar, fugir ou paralisar. São respostas automáticas do sistema nervoso autônomo (especialmente o simpático), mediadas pela amígdala e por estruturas subcorticais, sem envolvimento consciente. Mais tarde, aprendi uma quarta resposta, conhecida como “apaziguamento” (ou fawn), que não é puramente fisiológica, pois envolve maior participação do córtex pré-frontal e de processos conscientes (mas ainda é uma estratégia de sobrevivência diante de ameaça, aprendida e automatizada com o tempo), como a tentativa de agradar ou evitar conflito para se manter seguro. É o que acontece quando tentamos agradar ou nos submeter para evitar conflito. Sabe quando o cachorro abaixa as orelhas depois de ser repreendido? É uma forma de dizer: “ok, não quero brigar”. Nós, humanos, às vezes fazemos o mesmo: pedimos desculpas, concordamos só pra evitar confusão, e assim tentamos nos proteger.
Exemplificando… Num conflito, quem reage com luta se irrita e enfrenta. Quem foge, sai da sala. Quem paralisa, congela. E quem apazigua, pede desculpas rapidamente ou concorda só pra manter a paz (de forma bem resumida).
Mas além dessas respostas automáticas, também existem maneiras conscientes de lidar com o medo e é aí que entra a psicoterapia, que ensina caminhos aplicáveis na vida cotidiana.
O primeiro passo é aceitar o medo. Não lutar contra ele nem fingir que não existe. Aceitar o medo é admitir: “Sim, há coisas que eu não domino. E tudo bem.” A partir daí, é possível agir. Negar o medo é como varrer a poeira para debaixo do tapete, ela não some, só muda de lugar.
O segundo passo é compreender a origem. Questionar o que há por trás dele: será que o perigo é real ou imaginado? O que exatamente eu temo? Por exemplo, quem tem medo de dirigir pode descobrir que, no fundo, não teme o carro, mas o julgamento dos outros.
O terceiro passo é informar-se. O medo cresce no escuro, e o conhecimento acende a luz. Antes de uma cirurgia, conversar com o médico e entender o que vai acontecer diminui o medo do desconhecido. Quanto mais sabemos, menos assustador parece.
O quarto passo é treinar a calma. Respirar fundo, meditar, fazer pausas conscientes. Três respirações lentas já são capazes de acalmar o corpo e o coração. Essas práticas regulam o sistema nervoso e devolvem a sensação de controle. A calma se aprende e é ela que nos devolve o equilíbrio.
Depois vem agir apesar do medo. É seguir adiante mesmo tremendo por dentro, sem esperar o medo desaparecer para fazê-lo. A ação é o antídoto da paralisia. É enfrentando as situações, mesmo com o coração acelerado, que descobrimos novas habilidades e nos fortalecemos como pessoas.
Mas agir não é se lançar de cabeça no perigo, é se expor gradualmente. Na psicologia, chamamos isso de dessensibilização sistemática. Funciona assim: quem tem medo de cachorros pode começar vendo fotos de cães tranquilos, depois assistir a vídeos, mais tarde ficar no mesmo ambiente de um cão calmo, e só então fazer um carinho. O medo diminui passo a passo, conforme o cérebro entende que não há perigo real.
E, por fim, vem o passo de recorrer ao apoio. Falar sobre o que se sente pode ser libertador. Conversar com um amigo, familiar ou terapeuta ajuda a perceber que não estamos sós e que sentir um determinado medo não é fraqueza, mas humanidade.
Aliás, existe uma forma simples de guardar tudo isso: o acrônimo A.C.E.I.T.A.R.
A — ACEITAR O MEDO.
C — COMPREENDER A ORIGEM.
E — EXPOR-SE GRADUALMENTE.
I — INFORMAR-SE.
T — TREINAR A CALMA.
A — AGIR APESAR DO MEDO.
R — RECORRER AO APOIO.
Esses são os caminhos que a psicologia clínica tem mostrado para lidar com os medos, para conviver com eles de forma mais leve, consciente e humana.
Então, da próxima vez que o medo bater à porta (e ele sempre bate) não tente expulsá-lo. Apenas o acolha e diga algo como: “Tudo bem, eu sei que você está tentando me proteger”; “Eu entendo, você só quer me manter seguro”; “Eu sei que você veio para me alertar, e eu estou ouvindo”; “Eu te escuto, mas quem decide sou eu.”
Quem aprende a conviver com o medo, aprende também a viver com mais coragem. Na hora do medo, respire fundo e lembre-se: você é mais forte do que qualquer temor.


