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Vergonha e Constrangimento Social

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Pausa rápida para um exercício: peço que você feche os olhos por um instante e lembre de uma situação que te deixou com aquele sentimento desconfortável de exposição, aquele frio na barriga que temos quando nos sentimos julgados socialmente… Aposto que você não lembrou de apenas uma, lembrou de várias!

Essas situações de vergonha trazem aquela sensação ruim de estarmos completamente expostos… é quase como a sensação de se imaginar pelado no meio de uma plateia lotada. É um sentimento muito comum, mas que nem todo mundo sabe lidar muito bem. E justamente por não sabermos lidar, é que a vergonha, a sensação de inadequação e de exposição são muito comuns. No uso comum e dicionarizado, vergonha é entendida principalmente como aquela sensação de constrangimento, timidez ou medo do ridículo frente a situações sociais, ligada a momentos de exposição e embaraço. Já em psicologia, a vergonha pode ser entendida de forma mais profunda, envolvendo a percepção sobre quem somos em nossa essência, nossa identidade, e não apenas sobre o que fazemos. Essa distinção é importante para compreendermos os impactos emocionais e sociais dessa emoção.

Basicamente, a vergonha aparece quando temos uma crença profunda de que somos de alguma forma defeituosos, ruins. E normalmente isso vem de um sentimento de desvalor sobre nós mesmos, e não de valor, como às vezes se confunde. E é justamente aí que muitos pais, sem perceber, acabam usando expressões como “tenha vergonha” achando que estão orientando o comportamento do filho, quando na prática estão tocando na identidade da criança. Porque sentir vergonha não é sobre algo que a pessoa fez, mas sobre quem ela acredita ser. Quando uma mãe diz “tenha vergonha”, ela não está apenas chamando atenção para uma atitude, ela sem querer está desejando que a criança se sinta mal consigo mesma, que construa uma imagem interna negativa. Uma alternativa muito mais saudável seria focar no comportamento, dizendo coisas como “vamos pensar no que aconteceu?” ou “o que você pode aprender com isso?”, ajudando a criança a refletir sem ferir sua autoestima.

Agora, quando pedi para você lembrar dessas situações, é bem provável que tenha vindo uma sensação ruim, certo? Isso faz a gente achar que a vergonha é sempre negativa e nos esquecemos das suas consequências quando vivermos em grupo e o quanto ela é essencial para regular nosso bem-viver em sociedade!

Isso mesmo! A vergonha tem uma utilidade. É através dela que evitamos comportamentos que podem nos trazer problemas socialmente. Pensa em uma situação que normalmente sentimos vergonha: furar uma fila, por exemplo. Esse incômodo te faz respeitar a ordem e as pessoas. Já a vergonha de pedir ajuda em um momento sério, quando você está perdido na estrada, por exemplo, pode piorar muito a situação. Por um lado ela é útil, por outro é indesejada e causa problemas.

Outro exemplo do lado bom da vergonha: aquele friozinho na barriga depois que você conta uma mentira para um amigo próximo. Essa vergonha é que te faz pedir desculpas e consertar a relação. Nesse caso, ela regula nosso comportamento pró-social, nos mantendo conectados.

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É difícil imaginar, não é? Um sentimento que nos faz sentir tão mal… mas sem a vergonha, seríamos como sociopatas, sem freios sociais. A vergonha nos faz evitar aquilo que a produz. Então, no lado saudável, ela funciona como um termômetro social, nos mostrando os limites e as normas do grupo. Agora, no lado tóxico, ela paralisa, isola e corrói a autoestima. Imagina uma pessoa que carrega uma vergonha profunda de sua origem humilde e, por isso, evita fazer novas amizades com medo de falar sobre sua família… Ela vai se isolando cada vez mais.

E tem um fenômeno social muito comum hoje, principalmente nas redes sociais, que faz com que a gente tenha muito menos vergonha online do que na vida real. Por quê? Porque nas redes temos um controle muito maior da nossa exposição. Escolhemos o ângulo, o filtro, a edição, o momento certo para postar. Essa desinibição online muitas vezes compensa as nossas inseguranças do mundo offline.

Tanto que é super comum: tem gente que posta um vídeo dançando tranquilamente, mas entra em pânico se um colega gravar e postar um vídeo seu espontâneo e desprevenido numa festa, sem a sua autorização.

Só que, por outro lado, a exposição ou o “cancelamento” nas redes sociais, aquele linchamento virtual, tem consequências muitas vezes maiores. Um vídeo de alguém se expressando mal pode viralizar, e a pessoa, por medo de ser reconhecida, evita sair de casa. Muitas entram em depressão, desenvolvem transtornos de ansiedade, sofrem de estresse intenso, insônia e até somatizam, ou seja, o emocional reflete no corpo. Já houve casos de pessoas que foram demitidas do trabalho ou não são contratadas por causa de um post mal interpretado.

No fim das contas, a função específica da vergonha é fundamental para a vida em sociedade. Ela é benéfica e nos mantém conectados. Se a vergonha pudesse falar, ela diria: “Olha, seu comportamento está te isolando do grupo, é melhor corrigir”. É a vergonha que nos faz nos aproximar e pedir desculpas sinceras. Sem ela, seríamos incapazes de consertar nossos erros nos relacionamentos.

E tem ainda uma expressão muito curiosa no nosso dia a dia, aqui no Brasil: a tal da “vergonha alheia”. É a capacidade que a gente tem de sentir vergonha por outra pessoa, mesmo sem estar envolvido na situação. Ela surge quando percebemos que o outro está quebrando uma norma social que nós mesmos evitaríamos. É uma espécie de empatia invertida, como se a gente sentisse no corpo a sensação que seria nossa se estivéssemos no lugar da pessoa.

E é importante deixar claro: a vergonha alheia reflete muito mais sobre os nossos valores e medos do que sobre o comportamento do outro. Sentir vergonha alheia de alguém cantando desafinado e se divertindo no karaokê, diz mais sobre você, que morreria de medo de passar por aquilo, do que sobre a pessoa que está lá, tranquila, curtindo o momento.

Aposto que você pode estar pensando: “Peraí, em vários desses exemplos, o que a gente sente na verdade é constrangimento, não vergonha!” E é uma ótima colocação: qual a diferença?

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O constrangimento é uma reação imediata a uma situação inesperada e desconfortável. Por exemplo: tropeçar e derrubar a bolsa no meio de um shopping cheio. A pessoa fica toda corada, mas depois ri da situação. A emoção é sobre o acidente, o deslize. Ela não fala sobre quem a pessoa é. A sensação é menos intensa e profunda que a vergonha, e normalmente tem um elemento de comicidade envolvido.

Uma vez vi um documentário chamado “Eu Maior (2013)” onde um palhaço (Márcio Libar) falava sobre a capacidade que eles, os palhaços, têm de rir das próprias trapalhadas, de não levar a vida tão a sério. E ele lembrava a gente da função social de sorrir das nossas próprias amarguras e enganos.

Dessa mesma família de sentimentos, pode surgir a timidez, que a gente pode entender como um traço de personalidade também: um estado de desconforto e inibição em situações sociais, sempre com medo do julgamento negativo. É o famoso “medo da exposição“. Como aquela pessoa que evita falar em público, não porque se acha incapaz, mas porque teme a avaliação dos outros e fica superansiosa sob os holofotes. Ou quem, mesmo querendo, evita puxar conversa numa festa. Quando a timidez vira um traço muito forte e prejudica a vida social, é importante procurar um profissional para ajudar a trabalhar os medos e dificuldades que estão por trás.

Um sentimento que anda muito perto da vergonha é a culpa. Os dois se misturam bastante, mas não são a mesma coisa. A vergonha faz a gente pensar que tem “algo errado com quem somos”; já a culpa aparece quando sentimos que fizemos algo errado. Às vezes, quando a vergonha pega forte, ela pode virar culpa: aquela sensação que deixa a gente preso, repetindo a cena mil vezes na cabeça. Por exemplo: você faz um comentário que magoa alguém e depois fica ruminando aquilo sem parar. A culpa tem esse efeito de nos colocar nesse looping, fazendo a gente se sentir mal pelo que fez (ou pelo que acha que fez). Ela vem como um peso moral que pede reparação, enquanto a vergonha tenta nos convencer de que o erro diz algo ruim sobre quem somos.

No final, como todo e qualquer sentimento, quando a vergonha é bem gerida, ela funciona como um trilho para andarmos socialmente de forma adequada, ajudando-nos a conviver melhor e a sermos mais humildes e gentis, aprendendo até a rir dos próprios erros. E, como aquele palhaço do documentário, eu sugiro que a gente aprenda a sorrir um pouco dos nossos próprios equívocos, a não levar tão a sério cada passo em falso.

Podemos entender que brincar ou achar graça das nossas confusões pode ser uma forma socialmente aceita de lidar com as próprias dificuldades. Pode ser um recurso que a gente usa para enfrentar diversas situações, ou até um mecanismo de defesa saudável. O essencial é sermos mais gentis conosco mesmos.

E se tem algo importante de lembrar é que ninguém precisa carregar sozinho o peso da vergonha, da autocobrança ou dessa sensação de ser “menos”. Quando conseguimos olhar para nós com mais gentileza, o mundo interno muda e, com ele, tudo ao redor também.

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