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De vez em quando, um paciente com dores crônicas ou sintomas físicos sem explicação médica me faz uma pergunta que resume um dos maiores enigmas da medicina e da psicologia: como é possível que uma dor emocional se transforme numa dor física?
No último final de semana, fizemos uma ação numa comunidade no extremo sul de São Paulo, pela Fraternidade sem Fronteiras. Algumas das pessoas que atendemos chegaram com exatamente essa queixa: aperto no peito, taquicardia, sudorese, tremores, vista embaçando, dores de cabeça. Sintomas físicos reais, que apareciam sem que elas conseguissem conectar a nenhuma causa aparente.
E o que mais chamou atenção foi o seguinte: enquanto uma pessoa narrava seus sintomas, outras ao redor balançavam a cabeça. Reconheciam. Compartilhavam da mesma dúvida: como a minha cabeça produz tudo isso no meu corpo sem que eu esteja consciente do que estou produzindo? Era como se cada um estivesse carregando uma pergunta que nunca tinha encontrado resposta.
Imagino que muitos de vocês também já passaram por isso. Você vai ao médico, faz uma bateria de exames, espera o resultado com ansiedade, e o laudo vem: tudo normal. E aí, em vez de alívio, vem uma mistura de confusão, descrença e até vergonha. “Se está tudo normal nos exames, então estou inventando?“
Não. Você não está inventando. E é nossa função, como profissionais de saúde (psicólogos e psiquiatras) ouvir essas pessoas em seus questionamentos e ajudá-las a compreender o que está acontecendo. Porque é a partir da compreensão que começamos a lidar melhor com tudo o que sentimos, seja no corpo, seja na mente.
A dor que não aparece nos exames
Quando os exames não encontram nada, costuma acontecer uma coisa muito cruel: as pessoas ao redor passam a duvidar. A família olha com ceticismo. O médico fica sem resposta. E quem sofre começa a duvidar de si mesmo.
Isso gera um sentimento de desamparo profundo e muitas vezes de desolação. A pessoa já está sofrendo com os sintomas. E ainda precisa provar que está sofrendo.
Tenho relatos de pacientes que, ao entender que fatores emocionais estavam por trás dos seus sintomas, disseram algo assim: “Eu devo ser muito louca para produzir todos esses sintomas e ainda não conseguir fazê-los parar.” É um relato que parte o coração, porque revela o quanto a falta de compreensão sobre esse processo gera culpa em cima de dor.
E a culpa é um ingrediente que piora tudo. Porque a pessoa passa a se responsabilizar pelo próprio sofrimento de uma forma que não é justa nem verdadeira.
Tive uma paciente que brigou com o próprio pai depois que ele saiu de uma consulta médica com a impressão de que o pai estava “produzindo” os próprios sintomas, pela forma como foi conduzida a consulta pela profissional. Ela ficou furiosa, interpretou aquilo como se ele simplesmente não quisesse mudar os pensamentos e comportamengtos para melhorar, como se a solução fosse uma questão de força de vontade. Essa leitura equivocada gerou culpa, incompreensão e conflito em cima de conflito. O que só agravou a situação, tanto para quem sentia os sintomas quanto para os familiares.
Por isso é tão importante entender o que a ciência já sabe sobre esse tema.
O que a ciência já sabe
Quando falamos de dores físicas que têm como motor principal fatores emocionais, estamos falando de um campo que a medicina chama hoje de transtorno de sintomas somáticos ou, como muitos ainda conhecem pelo nome antigo, doenças psicossomáticas. O nome foi atualizado nos últimos anos, mas o conceito é o mesmo: sintomas físicos reais, biologicamente presentes no corpo, que têm no estresse, no trauma, na ansiedade ou em conflitos emocionais não resolvidos seu principal combustível.
E a palavra mais importante dessa definição é: reais. Dores psicossomáticas não são imaginárias. Não são fraqueza mental. Não são invenção. Elas são biologicamente legítimas e a neurociência já consegue mostrar isso em imagens do cérebro funcionando.
O que acontece dentro do cérebro e do corpo
Vamos entender o mecanismo de forma simples. O nosso cérebro tem uma região chamada amígdala (nosso centro de alarme emocional). Ela processa o medo, a ameaça, o perigo. E essa região conversa diretamente com o córtex somatossensorial, que é a área responsável por processar a intensidade da dor física.
Em pessoas que vivem sob estresse crônico ou que carregam traumas não processados, a amígdala fica em estado de hiperatividade, como um alarme de incêndio que não para mais de tocar. E quando isso acontece, ela amplifica os sinais de dor, mesmo quando não há nenhuma lesão física no corpo. O sistema de alarme está regulado no volume máximo.
Além disso, neurotransmissores como a serotonina e a noradrenalina regulam tanto o humor quanto a percepção da dor. É por isso que antidepressivos são frequentemente receitados para dores neuropáticas, não porque “é da cabeça“, mas porque a depressão e a ansiedade aumentam fisicamente a percepção da dor no sistema nervoso.
Imagine que você recebe uma notícia devastadora (a perda de um emprego, uma separação, a morte de alguém próximo). No mesmo instante, sente um aperto no peito. Uma tensão no pescoço que fica por dias. Não houve nenhuma lesão muscular. O que aconteceu foi que o estresse ativou a liberação de cortisol e adrenalina, que contraíram os músculos e alteraram a percepção de dor. O corpo está literalmente sentindo a emoção.
Mente e corpo: mais conectados do que parecem
Costumamos separar emoção e corpo como se fossem coisas distintas. Mas o que a ciência percebe é que tudo acontece no mesmo lugar, no mesmo organismo, ao mesmo tempo.
Tem exemplos que passam despercebidos justamente porque são corriqueiros. Lembrar da comida da avó e salivar na hora (algumas pessoas sentem até o cheiro, às vezes o gosto na boca). Ouvir uma música e sentir o coração acelerar ao lembrar da pessoa amada. Os olhos lacrimejarem e brilharem só de pensar em alguém querido.
E tem o exemplo que talvez seja o mais revelador de todos: assistir a um filme ou ler um livro (situações que não são nossas, com personagens que não existem) e chorar, gargalhar, sentir raiva, sentir medo. O corpo reage como se fosse real. Porque, para o sistema nervoso, a emoção é real. Tanto que temos uma expressão exata para isso: “fiquei completamente envolvido.”
Não temos um corpo e uma mente separados. Somos um corpo que pensa e sente ao mesmo tempo, e essa é uma das maiores descobertas da neurociência contemporânea, especialmente a partir dos trabalhos do neurocientista António Damásio.
A relação é bidirecional: a emoção adoece o corpo, e o corpo doente adoece a emoção. Uma dor prolongada ou uma infecção intensa pode gerar depressão e ansiedade, mesmo em pessoas sem nenhum histórico de transtorno emocional. O corpo evidencia o que a mente esconde. A mente absorve o que o corpo sente. Ambas as afirmações são verdadeiras e se complementam.
O intestino que sente o que a mente cala
Há outro sistema que merece atenção especial: o eixo intestino-cérebro. O intestino tem mais de 500 milhões de neurônios, tanto que os cientistas já o chamam de “segundo cérebro“. Ele se comunica com o cérebro de forma constante, pelo nervo vago, e produz boa parte da serotonina do nosso organismo.
Quando estamos sob estresse crônico, essa comunicação se desequilibra. O estresse altera a microbiota intestinal (aquelas bactérias que vivem no intestino e regulam funções muito além da digestão) e isso pode gerar dor abdominal, cólicas, intestino irritável, náusea, sem que nenhum exame encontre causa orgânica.
Imagine uma pessoa que passa por um divórcio difícil e desenvolve dores abdominais intensas. Faz endoscopia, colonoscopia, exames de sangue: tudo normal. Os médicos dizem “é estresse“. Ela se sente invalidada. Mas a verdade é que o luto ativou respostas inflamatórias, alterou a microbiota intestinal e sensibilizou as vias de dor visceral. A dor é completamente real. O gatilho foi emocional. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo e não se excluem.
Como identificar se a dor pode ter componente emocional
Nunca devemos assumir automaticamente que toda dor sem explicação é emocional, isso seria tão equivocado quanto ignorar a possibilidade. Mas alguns sinais ajudam a suspeitar.
Fique atento se: a dor surge ou piora em momentos de estresse; piora em datas que marcam traumas ou conflitos (aniversários de perdas, períodos de briga familiar); melhora quando você se distrai e piora quando fica ruminando os problemas; os exames são repetidamente normais mas os sintomas persistem; a dor migra (hoje na cabeça, amanhã nas costas, depois na barriga).
Se há histórico de trauma (abusos, perdas não elaboradas, infâncias de alta exigência ou negligência), a probabilidade de que a dor tenha um componente emocional significativo é muito alta.
Outro sinal que muitas pessoas não associam: o bruxismo (ranger os dentes à noite). Quem faz isso frequentemente diz “não estou estressado“. Mas o corpo já está dizendo o contrário enquanto a pessoa dorme. A tensão que não encontra palavras durante o dia, o corpo expressa à noite.
O ganho secundário: quando a dor vira proteção
Há um fenômeno que poucos falam, mas que é importante nomear: o ganho secundário. Em alguns casos, a dor crônica passa a cumprir uma função inconsciente na vida da pessoa. Ela garante atenção, justifica afastamentos, dispensa responsabilidades que a pessoa não sabe recusar de outra forma. Não é fingimento, é uma adaptação que o psiquismo desenvolve sem que a pessoa perceba conscientemente.
Num atendimento comunitário, uma pessoa me disse algo que nunca esqueci: “Eu não sei mais viver sem essas dores. Se um dia saírem de mim, não sei como vou viver. Meu cotidiano está todinho refém dessa dor.” É um relato que choca, mas é mais comum do que parece. Enquanto algumas pessoas querem desesperadamente se livrar da dor, outras, sem perceber, aprenderam a construir a vida ao redor dela. E o tratamento precisa contemplar também isso, com cuidado e sem julgamento.
Um exercício prático
Uma ferramenta que uso com pacientes com dores crônicas é simples: durante 2 a 4 semanas, anote diariamente a intensidade da dor (de 0 a 10) junto com o estado emocional daquele dia, os eventos que aconteceram e os pensamentos predominantes.
Com o tempo, padrões aparecem. A pessoa começa a perceber que a dor vai a oito quando há conflito familiar, e a três nos dias de descanso. Ou que piora sempre nas segundas-feiras, antes do trabalho. Essa consciência não cura, mas abre uma porta. E portas abertas permitem tratamento.
O que funciona no tratamento
As evidências científicas são claras: para dores crônicas com componente emocional (como fibromialgia, enxaqueca tensional ou lombalgias funcionais), a abordagem psicológica é um dos pilares mais eficazes do tratamento. Não como substituta do cuidado médico, mas como parte essencial dele.
Não adianta só falar de emoções se a pessoa está com dor a ponto de não conseguir pensar. Mas também não adianta só dar analgésico sem tratar a origem emocional. Tratar o corpo sem ouvir a mente é como consertar o sinal de alerta de um carro sem verificar o motor. E ignorar a biologia em nome do “tudo é emocional” é tão reducionista quanto o oposto.
O tratamento mais eficaz acolhe os dois: o corpo que dói e a história que esse corpo carrega.
Para encerrar
A dor não mente. Às vezes ela confunde a causa, mas ela não mente. Se você foi ao médico, fez todos os exames e voltou com a resposta “está tudo normal“, isso não significa que você está inventando. Significa que a medicina ainda está aprendendo a ler uma linguagem muito antiga: a linguagem do corpo que expressa o que a mente não consegue dizer em palavras.
E se alguém ao seu redor vive isso, não duvide. Não minimize. Acolha. Às vezes, ser levado a sério já é metade do tratamento. Cuide do corpo que chora em silêncio. Cuide da mente que grita em sintomas. Você merece ser ouvido em todas as línguas que o seu corpo fala.


