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Estamos no período das férias escolares. E vejo muitas mães e pais, tanto na clínica quanto em outros espaços, principalmente na família, com o mesmo assunto na ponta da língua: a quantidade de tempo que os filhos têm sem fazer nada e o quanto isso exige uma organização completamente diferente da rotina normal.
Outro dia, tomando café com duas amigas, elas me perguntaram: como é possível, com a agenda atribulada que temos, conciliar as férias dos filhos com as nossas próprias rotinas? Porque, como elas disseram, “a vida não pára.” Eu continuo tendo meu trabalho, minhas consultas, reuniões marcadas de última hora. E ainda tenho que cuidar da agenda dos meus filhos. Tudo ao mesmo tempo.
Não há como ouvir esse relato e não se sentir empático. No caso das duas amigas, elas ainda tinham os maridos para dividir as tarefas. Mas fico pensando nas mães e pais solos, que dependem de uma rede de apoio, ou que nem têm essa rede disponível.
O que as escolas oferecem e o que os pais podem fazer
Algumas escolas oferecem atividades nas férias: um ambiente mais controlado e seguro, com professores que promovem atividades lúdicas para o desenvolvimento emocional, intelectual e social das crianças. Mas nem todos os pais têm acesso a isso. Em muitas instituições, essas atividades são pagas. E nem todos dispõem desses recursos a mais no orçamento.
Há também aqueles que organizam as férias ativamente com os filhos ou que tiram férias no mesmo período, para participar das atividades, planejar viagens, viver uma rotina compartilhada. Cada família encontra seu caminho. O que importa é que haja um plano, porque sem planejamento, as férias podem virar fonte de estresse para todo mundo.
O estresse das férias
As férias somam demandas logísticas ao mesmo tempo em que reduzem o tempo individual de trabalho e de descanso dos pais. E muitas vezes se tornam estressantes justamente porque não há um plano antecipado nem um apoio compartilhado.
Uma mãe que trabalha em home office e tem dois filhos pequenos: em dias normais, eles estão na escola até as 17h. Nas férias, ela precisa dividir a atenção entre reuniões de trabalho, almoço, lanche, briga entre irmãos e atividades. O estresse triplica. Ela vai precisar construir, junto com o pai ou com sua rede de apoio, um plano claro para as férias. Sem esse plano, ela vai se sentir constantemente no limite e isso tem custo para a saúde mental.
O lado das crianças
Não podemos esquecer: as férias também podem ser estressantes para as crianças. A escola é, para muitas delas, um porto seguro social. Ela oferece rotina, previsibilidade, amigos, pertencimento. Quando tudo isso some de uma hora para outra, algumas crianças sentem ansiedade, mesmo que não saibam nomear assim. Ficam agitadas, irritadas, difíceis. Muitos pais dizem ser manha, mas é adaptação.
A dica de ouro: rotina flexível
A dica mais importante que posso dar: criem uma rotina flexível, mas não uma ausência de rotina.
A rotina funciona como âncora. Ela dá segurança tanto para as crianças quanto para os adultos, porque estabelece uma estrutura mínima dentro da qual todos sabem o que esperar. Ter um planejamento semanal (o que as crianças vão fazer na terça, o que vão fazer na quinta) reduz significativamente as birras que aparecem por tédio, e aumenta a cooperação entre todos.
As férias são uma pausa das obrigações escolares, não da organização familiar. A criança pode acordar um pouco mais tarde do que durante as aulas, mas continuar tendo horários relativamente estáveis para refeições e sono. Em vez de preencher todos os dias com atividades, a família pode reservar alguns dias para passeios e outros apenas para descansar em casa. Menos rigidez, mas ainda com estrutura. A estrutura traz segurança.
Atividades versus Descanso
Há pais que caem num extremo: entopem as crianças de atividades nas férias, com agenda cheia do começo ao fim. E há os que vão para o outro extremo: deixam o tempo da criança passar sem nenhuma organização.
A ciência do desenvolvimento infantil aponta um caminho do meio. Crianças precisam tanto de períodos com atividades quanto de tempo de descanso, e especialmente de tempo de brincadeira livre, não estruturada. A brincadeira inventada pela própria criança (sem adulto dirigindo, sem objetivo definido) é fundamental para o desenvolvimento da criatividade, da autonomia, da capacidade de resolver problemas e da regulação emocional.
Uma tarde sem compromissos pode render brincadeiras que nenhum curso ou atividade programada consegue oferecer. Férias são uma oportunidade para descansar, brincar livremente e crescer de outras maneiras.
O excesso de convivência
Mais tempo juntos significa mais oportunidades de interação, mas também mais chance de desentendimentos. Irmãos que passam o dia inteiro juntos podem discutir com muito mais frequência do que durante o período escolar. Isso é normal.
O estresse familiar nas férias quase nunca acontece porque a família está junta, acontece porque as demandas aumentam enquanto o tempo de qualidade diminui. Quando os adultos estão sobrecarregados e sem plano, a convivência vira atrito.
O impacto na saúde mental dos pais
Aqui vale nomear um conceito importante: carga mental. Não é só o trabalho visível, as tarefas que precisam ser feitas. É o trabalho invisível de lembrar de tudo, antecipar tudo, organizar tudo: o horário do filho, o lanche, a atividade de amanhã, quem busca, quem leva. Esse peso mental constante, que recai desproporcionalmente sobre as mães, geralmente, é um dos principais fatores de esgotamento durante as férias.
Imagine um pai que chega em casa e pergunta: “o que a gente faz amanhã com as crianças?” A mãe já passou o dia pensando nisso, reorganizando a agenda, preocupada. Ele faz a pergunta de boa fé. Mas para ela, a pergunta é mais um item numa lista que nunca fecha. Isso é carga mental.
Mães, pais e cuidadores com sobrecarga excessiva têm risco aumentado de esgotamento, irritabilidade e culpa (especialmente a culpa por não conseguir dar a atenção que gostariam aos filhos). Por outro lado, as crianças podem sentir ansiedade pela perda da rotina, tédio excessivo ou isolamento.
Para os pais, o que mais afeta a saúde mental nas férias não é o tempo livre que os filhos têm, é a falta de um plano adaptado e a sobrecarga não dividida.
O controle das telas
As telas precisam ser controladas, especialmente nas férias, quando a tentação de usá-las como “babá eletrônica” aumenta. É compreensível: a criança fica quieta, para de pedir atenção, e o pai ou a mãe consegue trabalhar por mais uma hora. Mas os efeitos do excesso de tela no desenvolvimento infantil são bem documentados.
As recomendações atuais da Sociedade Brasileira de Pediatria, da Academia Americana de Pediatria e da OMS são claras, e mais restritivas do que muitos pais imaginam:
Até 2 anos: zero telas, exceto videochamadas com a família;
De 2 a 5 anos: no máximo 1 hora por dia, de conteúdo educativo, preferencialmente com um adulto junto;
A partir de 6 anos: uso limitado e supervisionado, sem tempo máximo fixo definido pelas diretrizes, mas com atenção ao que está sendo consumido e como.
E uma distinção importante: assistir a um filme em família é diferente de deixar a criança o dia inteiro sozinha diante de uma tela. A tela em si não é o problema, o que ela substitui é. Quando substitui o movimento, a brincadeira, a interação e o sono, aí o problema aparece.
A convivência com vizinhos
No período das férias, especialmente em condomínios, os conflitos com vizinhos aumentam. Brincar é um direito da criança: e brincar é movimento, é barulho, é vida. Mas a boa convivência exige respeito de ambos os lados.
Uma sugestão prática: combine com outros pais do condomínio horários para brincadeiras mais barulhentas: até às 20h, por exemplo. Depois, apenas brincadeiras silenciosas. E que tal criar um rodízio entre os pais para acompanhar as crianças no pátio? Cada dia, um adulto. Isso reduz o barulho desregulado e ainda fortalece os vínculos da comunidade.
Guarda compartilhada nas férias
Para os pais separados com guarda compartilhada, as férias trazem um desafio extra: a criança pode ter rotinas muito diferentes em cada casa.
Uma criança que passa 15 dias com o pai (casa com poucas regras e muito videogame) e 15 dias com a mãe (rotina estruturada e pouca tela) pode levar alguns dias para se readaptar a cada transição. Isso gera irritabilidade, choro, dificuldade de regular o comportamento. Muitos pais não compreendem esses comportamentos muito comuns, que apenas comunicam pra gente, que as crianças estão apenas se readaptando a estes diferentes lugares.
Por isso, é importante que os pais entrem em acordo sobre pelo menos algumas rotinas básicas: horário de dormir, tempo de tela, refeições. E que criem uma “ponte” entre as casas: uma chamada de vídeo, ou um objeto de transição (um carrinho, um cobertor, uma boneca ou ursinho de pelúcia, entre outros por exemplo) que vai junto com a criança de uma casa a outra.
Rotinas diferentes não são, por si só, um problema. A criança se adapta. O que causa impacto real é outra coisa: quando um pai desqualifica o outro diante da criança. “Na casa da sua mãe é assim, mas aqui a gente faz diferente” (dito com desprezo) faz muito mais mal do que qualquer diferença de horário. Crianças se adaptam bem a duas rotinas. Elas têm muito mais dificuldades com ambientes de conflito permanente.
Por fim
As férias escolares são um período desafiador para toda a família. Mas também podem ser uma oportunidade.
Oportunidade de criar novas memórias, de brincar de forma diferente, de desacelerar. De estar junto, não só no mesmo espaço, mas com presença de verdade.
O segredo está no equilíbrio: entre rotina e flexibilidade, entre atividade e descanso, entre tela e presença, entre o que a criança precisa e o que os pais conseguem oferecer. E, acima de tudo, está no acordo entre os adultos. Dividir os cuidados. Combinar os limites. Estabelecer parcerias. Lembrar que ninguém precisa dar conta de tudo sozinho.
As férias passam. O que fica é como a família viveu esse tempo. E, muitas vezes, o que as crianças mais lembram não são os passeios grandiosos, são os momentos simples: uma tarde de brincadeira no quintal, um filme em família, uma conversa sem pressa à mesa.
Que as férias sejam isso: tempo de presença, de pausa e de afeto. Mesmo com a agenda cheia. Mesmo com o cansaço. Porque no fim, o que importa é como esse tempo foi vivido.


