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Setembro Amarelo e Educação dos Filhos

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Criar filhos nunca foi tarefa simples, e hoje temos um desafio a mais: as redes sociais. Elas transformaram a forma como nos comunicamos e como acessamos informação. Nunca foi tão fácil estar conectado e nunca foi tão fácil, também, que crianças e adolescentes tenham acesso a conteúdos que podem fazer bem ou… fazer muito mal.

Um simples clique pode abrir portas para conteúdos inimagináveis. E quanto mais a criança ou o adolescente clica, mais as plataformas mostram coisas parecidas. Os algoritmos aprendem o que eles gostam e também possibilita criação de novos gostos ou até mesmo vícios.

Agora, se pra muito de nós, adultos, que vimos as redes sociais nascerem, já é difícil filtrar o que é bom e o que é ruim… imagine para eles, que ainda estão em formação, descobrindo quem são e construindo sua identidade. Quanto menor a idade, maior o risco, porque o cérebro ainda está em desenvolvimento.

Vamos pensar num exemplo: imagine uma adolescente que já sofreu bullying na escola, tem poucos amigos, não sente muito apoio em casa e não consegue acesso a atendimento psicológico. Ela passa horas no celular, recebe comentários maldosos nas redes, começa a se sentir inadequada. Aos poucos, vai se isolando, perde a vontade de fazer coisas que gostava, e começa a desenvolver uma depressão grave. E a gente sabe: a adolescência já é uma fase cheia de mudanças: o corpo, os hormônios, a pressão por boas notas, a expectativa para o futuro. Quando as redes sociais entram nesse cenário, tudo pode ficar ainda mais pesado.

E aí vem o perigo. Um jovem que já está fragilizado pode começar a se comparar o tempo todo. Ele olha para aqueles corpos “perfeitos”, aquelas vidas “ideais”, e pensa: “eu nunca vou ser assim”. Isso mina a autoestima, gera ansiedade, transtornos alimentares, problemas de sono. E quando o sono vai mal, todo o resto piora: o humor, a concentração, até o desempenho escolar. Essa sensação de não ser suficiente pode terminar em ideação suicida.

E é por isso que, no Setembro Amarelo (o mês da prevenção do suicídio) nós falamos tanto sobre ficar atentos aos sinais. Precisamos observar mudanças de comportamento: se o jovem está se isolando, se não quer mais sair do quarto, se começa a usar frases como “vocês estariam melhor sem mim”, ou se está sem esperança para o futuro. Outros sinais importante são mudanças bruscas de humor e o uso de álcool e drogas. Muitas vezes, essas frases e comportamentos são pedidos de ajuda disfarçados. Sem falar naqueles jovens ou adolescentes que estão se cortando ou se autoagredindo, fato muito recorrente hoje e encontrado facilmente em comunidades nas redes, ensinando como fazer e até explicando os meios e como esconder dos adultos.

E o que nós, pais e educadores, podemos fazer? A chave é o diálogo. Não é aquela conversa formal, cheia de sermões, que afasta o adolescente. É uma conversa natural, leve, que mostra interesse real. Você pode perguntar, por exemplo: “Filho, como você tem se sentido ultimamente?”. Ou: “Como foi seu dia? Teve algo que te deixou feliz ou preocupado?”.

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E quando eles falarem, é importante escutar sem julgamento. Muitas vezes, nossa vontade é resolver tudo na hora, dar conselhos ou minimizar. Mas a escuta é poderosa. Em vez de dizer “Ah, não se preocupe com isso”, tente dizer: “Eu vejo que isso te deixou chateado. Quer me contar mais sobre o que aconteceu?”. Essa simples mudança de postura abre espaço para que eles falem mais e sintam que são levados a sério.

Vou contar um exemplo prático: uma mãe me disse que a filha de 13 anos estava muito irritada, batendo porta, chorando sem motivo. Ao invés de brigar ou tirar o celular como castigo, ela sentou no quarto com a filha e disse: “Filha, eu percebo que você anda diferente. Não sei se você quer falar agora, mas eu estou aqui pra te ouvir quando você quiser.” A menina chorou muito, e aos poucos foi contando que estava sofrendo bullying num grupo de mensagens. Essa simples abertura ajudou a adolescente a se sentir acolhida e foi o começo de uma busca por ajuda.

Os jovens aprendem mais observando do que ouvindo. Na psicologia, chamamos isso de modelagem. Não adianta falar para o seu filho que é importante cuidar da saúde mental se você não cuida da sua. Mostrar que você também tem emoções, que às vezes fica triste ou estressado, e que procura formas saudáveis de lidar com isso (como respirar fundo, conversar com alguém de confiança ou procurar ajuda profissional) é um grande ensinamento.

Se o seu filho ou filha der qualquer sinal de que está pensando em se machucar ou em morrer, leve isso a sério. Não é drama, não é “fase”. Procure ajuda profissional o quanto antes. Existem psicólogos, psiquiatras e serviços de emergência preparados para acolher e orientar. E se o risco for imediato, leve para um pronto-socorro. Ligue para o CVV no número 188, eles têm um serviço gratuito, 24 horas por dia inclusive em atendimento por chat no seu site www.cvv.org.br .

A aproximação é a melhor forma de proteção. Esteja presente na vida dos seus filhos, mesmo que eles digam que não querem. Esteja por perto, saiba quem são os amigos deles, que jogos eles jogam, que influenciadores seguem. Sem invadir, mas com interesse genuíno.

E cuide de você também. Pais e mães emocionalmente saudáveis ajudam os filhos a se tornarem adultos mais seguros, funcionais e felizes. Quando você está bem, tem mais paciência, mais empatia e mais clareza para lidar com as crises deles.

Então, nesse Setembro Amarelo, meu convite é este: olhe para os jovens ao seu redor. Ouça, acolha, valide os sentimentos deles e, se for preciso, busque ajuda profissional. A vida deles pode depender de uma conversa que começa hoje.

* Texto falado no programa da Radio Boa Nova (1450AM ou 85.5FM ou https://radioboanova.net/ às segundas-feiras no Programa RBN Notícias às 18h00).

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